terça-feira, 30 de agosto de 2016

AUTOCONHECIMENTO?


"Você, quando faz essa cara, eu já sei. Te conheço muito bem"!

Como não havia espelhos por perto, ele jamais soube que cara era aquela, tão fácil de decifrar. À qual expressão ela se referia como sendo a personificação perfeita do seu mais íntimo ser. Aquilo que seria a auto (dele)- definição (dela).
Logo ele, que já passeara tanto pelos mundos. Que já vira tanta coisa, tanta gente, tanta história. Que era mesmo chegado a um devaneio e a uma contemplação, mas que se misturava, também, muito bem à multidão... 
Logo ele que, como quase todo mundo, já mudara suas convicções e pratos preferidos tantas vezes... Que já usara cada máscara tão diferente uma da outra, para mostrar e para esconder o que pensava...
Não teve jeito. 
Desta vez, — ela alegava: —  fora descoberto em praça pública. Por um simples olhar e morder de lábios. 
O interessante é que, à medida que ela narrava e descrevia aquele que deveria ser perfeitamente apreensível num instante, ele de nada sabia. Não se reconhecia mais naquela roupa que, um dia, já parecera lhe caber bem. 
A mesma expressão de outrora, hoje era usada para outros assuntos. E por mais que, na fotografia, ela insistisse, no canto do olho se podia perceber tudo muito diverso.
Ela, inquisidora, ordenava-lhe a confissão. 
Ele, estranhando, só sabia-se EM CONSTRUÇÃO.

E continua...




sábado, 30 de abril de 2016

ESTÁVEL



A samambaia de minha tia nunca deu trabalho. Não secou por falta de água, não murchou ao sol, não reclamou da sombra, nem uma lagarta sequer tentou comê-la.
Ela estava lá, sempre lá. Onde quer que fosse, ela estaria sempre ali onde a colocássemos. Sem nada a dizer, gemer ou blasfemar.
Assim eram os deprimidos sob controle. Os que tomam medicamentos há 15 ou 20 anos. Sem dar trabalho e sem trabalhar também. Sem sorrir ou chorar ou tentar cortar os pulsos. Sempre ali. Sob o sol, sob a chuva ou mesmo a fome.
Tudo sob controle. Devidamente medicados. Mas e o resto da vida?
Aquele resto que espirra? Que reclama do calor e do frio? Aquele que agradece o calor ou o frio? Aquele que liga pros amigos, xinga, ri, e levanta e dança quando toca aquela música? Não qualquer uma. Aquela!!!!
Ah, mas para isso tem que fazer terapia. Custa caro - não importa quanto, o preço é muito alto. É longe. Mal se tem tempo.
Deixa pra lá. 
Vamos ficar assim, samambaias. Choronas por dentro. Mas estáveis por fora.

DA ORDEM DO IMPOSSÍVEL

Diante do imperativo atual de só ter pensamentos positivos, ela se deitou em feto e se perguntou, ao estilo Jorge Luís Borges: "De quem eram os pensamentos, afinal"?!?
Quase em revolta. Quase. Choramingava, se debatendo.
"Eu? Ter pensamentos positivos? Mas há momentos em que não penso. 
É o pensamento quem me tem. É ele quem me possui. É ele quem toma conta e dá as ordens. Às vezes, o único fator positivo e certo é a certeza de que um dia será o fim."

Onde foi que li historinhas que suprimiram a madrasta, o lobo mau, a bruxa, ou mesmo a bagunça que o Saci Pererê fez? Acho que não cheguei ao final, dormi no meio. Ficou assim sem emoção. Não consegui me identificar com nada.
Onde será que existe este pensamento limpinho, embalado à vácuo?

Se eu purificar meu pensamento, chego ao ponto de exterminar pessoas, alegando que algumas sujam o meu planeta fantástico. 
Então será um pouco problemático, pois estabelecerei critérios de assepsia que variarão de acordo com meu humor do dia. Hoje brigo com um velhinho na fila do banco. Amanhã estabeleço que velhos são sujos e inúteis, e os elimino. Roubo sua aposentadoria. Enveneno sua comida e está feito. 
Já na semana que vem digo que um menor de idade tentou me assaltar e... Está tudo limpo. Saio atirando pela rua de madrugada, Explodo escolas, escondo os livros escolares, saboto as aulas e pronto. Em pouco tempo não haverá um que atravesse a rua e passe por mim. Não haverá um sequer. Termino assim o serviço de Herodes, desta vez sem deixar falhas. Faxina bem feita.
Limpinho assim, né?!? Puro e branco como a neve!
Mas não resolve. Nem adianta.
Você - e todo mundo - terá que se haver com o lado negro da força. E seu pensamento sabe muito bem disto. 
Ah, sabe!

REVISTA CARAS ou INTIMIDADE

No princípio era o verbo...
Então vieram os jornais, revistas, informativos da igreja, aplicativos just in time... e os livros ficaram pesados demais.
A máxima de adquirir informação como instrumento primordial para a construção de sabedoria ou estratégia de ação foi divulgada aos ventos. Mas de que informação estou falando?
O que me faz comprar uma revista e me deparar com milhares de babados e taças de champanhe se não estou lá naquelas ilhas?
Ora bolas, se eu souber tudinho da vida do outro, fico tão íntima dele, mas tão íntima, que é capaz até de ele me chamar pra próxima feijoada ou batizado na família. 
Por isso eu tenho que saber direitinho a metragem da bunda da mulher do ministro, por isso eu defendo o uso da força e do "atira depois pergunta" como forma de me defender da bala.
Outro dia ouvi de uma pessoa que admiro bastante: "O político X tem boas ideias, mas não gosto dele pois sei muito bem que ele tem uma amante".
Ora bolas de novo, mas isso é problema dele com a Hillary dele. Não meu. é particular demais eu querer saber detalhes tão pequenos de vós dois, se não formamos o "nós".
Meu único interesse nesse caso é: Qual verba ele gasta com isso, se a dele ou a minha? Se a privada, ou se a pública. 
No mais, ele que faça o que bem entender com seu corpo, contanto que não agrida ninguém.
Onde foi que a exigência de castidade começou a vigorar sobre ideias e ações? 
Quando foi que a linha que separa vida íntima de vida pública foi apagada?
Por que me exponho e acompanho, sem piscar, a exposição dos outros sobre o que não me diz respeito?


terça-feira, 8 de setembro de 2015

AUTO IMUNE


Depois do tratamento começado, remédios tomados, efeitos colaterais controlados, veio a inversão da ordem.
O corpo, afinal, ataca a doença? A doença, afinal, é cria do corpo?
Quem começou essa briga de criança? Quem se defende e quem ataca?
Qual dos dois merece castigo?
Diante do empate, o embate derradeiro:
"Agora sou eu ou você! Um de nós tem que morrer."
Ameaçou o velho menino , debaixo da cama, escondido no escuro.
O barulho lá fora, de pegada forte, de porta sendo forçada, era um conforto diante dos lobos e bruxas lá dentro.
Dentro de onde?
Dentro do corpo, ora bolas. Onde mais?
No lugar mais escondido e protegido possível.
De onde mais viria o ataque? Naquela hora da madrugada?

EM NOME DO AMOR ou VAMOS NOMEAR OS BOIS


Eu posso até chamar pimenta de sal. 
Rebatizá-la. Fazer cerimônia. Molhar as pontas em água benta e renomear.
Posso registrar em cartório e mudar a filiação. Posso adulterar as datas, falsificar assinaturas, recontar a verdadeira história e dizer que foram descobertos documentos antigos. Que foram feitas pesquisas. Que os cientistas aprovaram.

Mas quando eu colocar na boca...
... vai arder!
Certeza!!!

Eu posso até ouvir gritos e socos na mesa, dizendo que é por amor. Posso aceitar que o dragão lá fora está só prezando por segurança e por isso não deixa ninguém entrar ou sair.  Que é por cuidado que ele sai de casa e volta trôpego, guardando o ruim para a rua. Que é por distração que urubu vira meu loro e o nome é trocado na noite. 

Mas vai ferir!

Posso até dizer que é por limpeza de honra as ofensas e agravos cometidos. Que o ciúme é a maior prova de amor, e das mais puras. E que os escândalos descabidos são por busca de sanidade, para evitar o pior.

Mas machuca do mesmo jeito!

Posso estudar muito e fazer cursos de extensão. Conhecer o mundo e experimentar comidas estranhas. Aprender a negociar e regatear em outra língua. Mas sem nomear as coisas como são, sou nada além de analfabeto. 
Espécie de comida pastosa para quem não desenvolve o maxilar.
O choro contrariado dos bebês e dos bêbados sonolentos.
A contagem atropelada da cantora que pulou o jardim de infância, sem contato com ábaco, entrando na hora do solo.

Mas faltará o básico!
Faltará o nome!
E caberá qualquer palavra errônea, só pra completar a lacuna, preencher a ficha, encher o vazio, empilhar o lixo.

Mas vai faltar espaço!

quinta-feira, 5 de março de 2015

TUDO



Na ânsia de enumerar seus feitos, orgulhosa do novo recorde, ela resumiu assim, numa só palavra, o que esperava como recompensa.

Um reconhecimento merecido a quem tanto dedicara a uma só causa.
Um troféu. Uma tatuagem no braço. Uma declaração...
Mas NADA vinha!

Desespero diante de tanta ingratidão. Contas a receber. Cálculos sempre injustos. Desfeita do não-retorno.

Parecia até poesia, se não doesse na carne. Se não doasse. 
Para tanto feito, tanta desfeita:
- Eu fiz TUDO por ele - Repetia. TUDO.

Assim ela sintetizava, poupando-se de enumerar o que nem cabia no mundo mais, de tão imenso.
'Tudo' é sempre muita coisa. É sempre excessivo e aterrador. Plenitude falsa, que inflige grandiosidade e restringe qualquer detalhe. O Tudo finge! 
Qualquer coisa menor, mais simples, coisa de gente mesmo, enfim, perde a importância. Passa despercebido.

Ora bolas, o Tudo é para super-heróis. 
Para quem salva o mundo todo. Para quem tem poderes demais. Não pra quem pega resfriado. Não para quem fica feliz pregando um novo quadro na parede, fazendo um desenho ou um bolo. Para quem se alivia bebendo um simples copo d´água nesse tempo de escassez.
Tudo é muito grande. É muita coisa. Não há mensuração que dê conta.
Impossível mastigar e engolir. Sobra. Cai da boca. Quebra os dentes.
Sobra o que de nada serve. O que ocupa muito espaço e invade. Casa entulhada de coisas pra disfarçar vazios.
No tudo há tanto que falta.
Falta a troca justa e milagrosa do fazer junto.

O que espera receber em troca quem faz tudo por alguém ?
Como se paga? Como se faz também?

Resta só um NADA a se fazer. 
Impotência aterradora. 
Não-ser como única forma de existir.

- Você entra com esse tudo. E me sobra esse nada aqui para colaborar.

Assim foi feita a prova dos nove, contabilizando a relação.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

UM CASO ESPECIAL


"É que no meu caso é diferente". 
- Garantiu!
"Mereço atenção especial e tratamento personalizado. Não que eu seja mais do que alguém, ou me ache o supra-sumo da geração. Isso não. Sempre fui boa de coração e humilde com o próximo. Nasci assim. Foi isso desde pequena. Mas é que sou diferente. De verdade.
Dizem até que sou espírito evoluído.  Talvez por isso, quem sabe, meu caso seja outro.
É que comigo o problema não é meu. Eu nada tenho com eles, que chegam sem serem convidados e se instauram na minha vida sem que eu possa controlar. Eles tomam de assalto meu cotidiano. Enquanto eu simplesmente mudo a TV de canal, enquanto pisco, enquanto nada tenho a ver com isso.
São os outros que me deixam assim. São eles quem provocam minha insônia, minha taquicardia, meus pesadelos. Meus, meus, meus,..., meus pensamentos mais pueris e sujos. 
Não fosse o resto do mundo, eu, que sou especial e diferente, estaria simplesmente em perfeitas condições".

domingo, 26 de outubro de 2014

BOM SENSO

Eu, como Fernando Pessoa, nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Talvez seja a única coisa em comum. Talvez não.
Mas de quem cometesse um deslize,  ou um mau gosto sequer, jamais tive notícias.
Todas, e não algumas, mas todas as pessoas que já passaram por mim na vida. Na rua, na chuva, na calçada. Que já puxaram conversa na fila da padaria, ou com quem tive uma aproximação um pouco mais duradoura do que um só momento apenas, talvez uns quatro ou nove, talvez rotina, são dotadas de razão, inquestionável, e de todos os motivos do mundo para agirem desta ou daquela forma.
É lógico!
É claro!
É óbvio!
Ó pá, só não vê quem é burro.
E nisso formamos times que jamais se modificam, a não ser que um pensamento estranho o corte, condenando-o à exclusão do grupo.
É incrível como a droga do outro é sempre mais pesada do que a minha.
Como o outro jamais saberá a verdadeira história do rock´n roll.
É unânime como uma pessoa dotada de clareza e informações críticas possa chegar a mesma linha de raciocínio que eu. Ou melhor, possa "alcançar" a minha lógica, pois é uma questão de aptidão. Aptidão para poucos.
O resto?
Ah, o resto é corja. 
É atraso. 
É o fim do caminho.

Em tempos de eleição, ou mesmo em qualquer tempo, o outro, que pensa diferente de mim, por mais que eu defenda diferenças, é um monstro ignorante e ingênuo. Obtuso mesmo, coitado. Diria até que atrasado. 

Alguém tão desprezível que não merece nem um microfone aberto. Nem a expressão da dor nem a do amor.
Só pode ser maluco. Ou, em tempos de maniqueísmo, só pode ser um "ente do mal".

O mais irônico é que, dizem, não se deve contrariar os malucos. 

Eles, os loucos, os outros, os que não foram dotados com a graça do (meu) bom senso nem da (minha) sensatez, não merecem a contradição. Nem perca tempo!
Afinal, ninguém conseguirá demovê-los de suas certezas. E se tem algo que diferencia os malucos de nós, os normais, é que eles não se engajam num diálogo onde valha a minha opinião, já que Possuem sempre a certeza. Seja a de um chip implantado, seja das vozes da tv que se direcionam aos escolhidos, seja do envenenamento da comida. 
É questão de crença inabalável. E é isto o que os classifica como desprovidos da razão: Não há dúvida. Não há conflito. Não há sequer a bipolaridade. 
Um "as vezes", um "de vez em quando", um "quando chove",... nada disso existe. 
É sempre, sempre aquele ser "autêntico e verdadeiro". Indubitavelmente.

Esse negócio de saber de tudo... Maluco isso, né?





" Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la." (Voltaire)

terça-feira, 15 de abril de 2014