quarta-feira, 17 de outubro de 2007

SAUDADE DO CHIQUEIRINHO


... E o bebê ficava ali no meio da sala, usando um pedaço muito pequeno da casa - a parte que lhe cabia daquele latifúndio - seguro toda vida. Dentro do chiqueirinho, ou cercadinho, ele estava sempre seguro.
Nada podia lhe atingir. Nada podia lhe acontecer. Nenhum tropeço, nenhum objeto era estranho, nenhuma queda era perigosa.
Nada!
Sem riscos. Sem novidades. Sem vista pro céu.
Ah, o céu!!!
É curioso como alguns hábitos da infância permanecem eternamente.
Duvido que só eu tenha notado que tem gente por aí que caminha de andador até hoje. A gente olha a pessoa e consegue até visualizar aquele disco esquisitíssimo de plástico azul com rodinhas, onde se punha as pernas e teoricamente ensinava a andar com segurança. (Como se as pessoas só pudessem aprender a andar com esse objeto altamente anti-natural).
Nem vou falar aqui de fase oral, com chupetas trocadas por cigarros, bebidas e comidas... Cito apenas aqueles troços que cumprem a promessa de proteger.
E eles insistem em permanecer no convívio da gente, mesmo que o objeto em si já nem exista mais. E toma-lhe chave e tranca, toma-lhe condomínio altamente vigiado, toma-lhe emprego chato, toma-lhe namorado(a) intragável. Tudo muito seguro e sem ameaça de surpresa. Assim não existe a menor probabilidade de alguma coisa decepcionar, de sair do controle, de machucar.
se não acontece nada novo, como alguma coisa pode dar errado?
Só que lá na infância tinha o domingo.
O passeio era diferente. Parque, areia, praia, zoológico, vento no rosto, banho de picolé derretido, onda que derrubava e deixava sem prumo, árvore, jabuticaba, pé descalço, bicicleta, sol, ...
Mas e o céu hoje em dia? Cadê? Cadê olhar pro alto e perceber que há muito mais do que o teto da sala visto do chiqueirinho?
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