quarta-feira, 4 de maio de 2011

SOUVENIR

Desde a minha primeira aula de química não sou muito boa para nomes. Misturo tudo. Personagens de filme, livro ou desenho animado.  Confundo história de Portugal com nomes espanhóis. Tudo por causa do isótopo e do isóbaro que teimavam em ser esquecidos no dia da prova.
Depois disso vieram Anaximandro e Anaximenes, Pena Branca e Xavantinho, Penadinho e Xaveco. Ai... tanta dupla, que não sei mais quem é Osama e quem é Obama. E tudo isso muito antes dos countries universitários surgirem. Estes, só agradeço, vieram depois de eu sair da faculdade.
Mas em tempos de Páscoa eu sempre guardava comigo uma cena marcante dos filmes da vida de Cristo. 
Cena marcante, bizarra, que me batia na cara e chacoalhava toda minha ingenuidade infantil ali no meio da sala da vovó.
Aparecia uma mulher lindíssima, dançante e sedutora: Salomé. E a tal enchia a boca de ódio pedindo um presente: "A CABEÇA DE JOÃO BATISTA".
Até essa cena, eu não fazia ideia da maldade do mundo.
Hoje me pego pensando aqui nessa mania que a gente tem de sair recolhendo cabeças por onde passa. Queremos provas de amor. Queremos documentos. Queremos o coração da Branca de Neve numa caixinha.
Como já estamos mais racionais - dizem - nos contentamos com fotos e imagens.
Depois que os japoneses acharam um jeito de esconder seus calcanhares de Aquiles - os olhos pequenos - se escondendo atrás de máquinas fotográficas, o negócio ficou ainda mais grave.
Tudo, mas tudo mesmo, vira documento hoje em dia. O registro é mais fiel que a memória. A precisão não é do momento, mas do photoshop.
Juntando as fotos com o celular mandando mensagem a cada fila do pão, a pergunta fica:
Cadê a ansiedade?
Por onde anda a questão da existência? 
O devaneio criativo saiu prá dar uma voltinha mas nem é mais preciso grudar do lado do telefone esperando ele dizer que chegou bem. O e mail já foi enviado e, a não ser que Nossa Senhora da Boa Conexão resolva falhar e castigar muito seus fiéis, ele será respondido em 30 segundos.
Enquanto isso, na batcaverna, O garoto prodígio quer perseguir a tal Salomé, fonte de angústia e sofrimento, mas percebe, tropeçando, que há uma ilha inteirinha de lixo debaixo do tapete.
Ué, mas a angústia não foi liquidada pelos remédios e souvenirs do nosso último encontro?
A única resposta cabível vem do menino espertinho de roupa esquisita:
"-Santa Ingenuidade, Batman! Nem Super-homem consegue."

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