segunda-feira, 7 de abril de 2014

COMO VAI VOCÊ?


A conversa começou assim:

Despretensiosa! 

Quase como um bocejo. Como quem está no elevador e pergunta, só pra passar o tempo, até que se chegue ao destino desejado.
Como quem fala do clima, mal preenchendo espaços vazios, e evitando assim qualquer olhar mais demorado, reclama-se do sol que castiga, da chuva que castiga, da seca que castiga, do vento. Um horror! Um horror!... 
Enfim, em termos de meteorologia, o ambiente é sempre castigo! Afinal, quem mandou comer maçã??? Deu nisso. A sorte é que, como dizia Mario Quintana, no paraíso não haverá este assunto, pois lá a temperatura está sempre agradável.

A resposta, no entanto, se fez longa, minuciosa e interminável...
Infinita mesmo!
Já que infinito é o que não tem início ou fim. 
É o que não se sabe bem como começa, e por isso não se tem a menor ideia de como, e se, terminará um dia.
Repetição eterna do que não faz sentido.Por mais que se sinta, e muito.
Resposta detalhada, prolixa, sem fio condutor ou causalidade. 
Nada do "Era uma vez...", "...Foram felizes", ou mesmo "foram encontrados mortos e abraçados" que tanto encantam. 
Não há história, estória ou parábola. Não há lição de moral, chiste ou sermão. 
Não há nada. Nada além das queixas: 
- Pressão alterada, arritmia cardíaca, dor no ciático que irradia, vesícula preguiçosa, humor alterado, ansiedade crescente, e por aí vai. Descrição total do metabolismo, desde o acordar, repleto de efeitos rebotes, até a insone madrugada, dependente de remédios que nunca, nunca fazem efeito. 
Eita corpo resistente!!! Há que ser muito saudável pra suportar tudo isso. Tanta prova de que se está vivo, mesmo que vida não haja.

E não adianta mudar de assunto pra ver se muda a resposta, não. Se perguntar "O que tem feito?", a resposta será, inequivocamente, uma lista de especialistas que tomam o lugar do inglês, da natação, das viagens e encontros, dos cursos de artesanato, de música ou de teatro. Em troca destes há o Cardio..., o Pneumo..., o Neuro... e o Hemato... Todos com letra maiúscula. Todos com abreviações tomando o lugar dos apelidos amorosos de outros tempos. E um pronome possessivo denotando total intimidade e demarcação de território. Afinal, o doutor não é qualquer um, é O MEU. Ele é quem sabe tudo de mim. Ele conhece exatamente como eu (não) funciono. 

Do outro lado a pergunta gritando no peito, sem vontade nenhuma de ser falada:
"Mas quando foi que nos transformamos em meras descrições nosológicas? Meros efeitos colaterais de nós mesmos?"




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