quinta-feira, 5 de março de 2015

TUDO



Na ânsia de enumerar seus feitos, orgulhosa do novo recorde, ela resumiu assim, numa só palavra, o que esperava como recompensa.

Um reconhecimento merecido a quem tanto dedicara a uma só causa.
Um troféu. Uma tatuagem no braço. Uma declaração...
Mas NADA vinha!

Desespero diante de tanta ingratidão. Contas a receber. Cálculos sempre injustos. Desfeita do não-retorno.

Parecia até poesia, se não doesse na carne. Se não doasse. 
Para tanto feito, tanta desfeita:
- Eu fiz TUDO por ele - Repetia. TUDO.

Assim ela sintetizava, poupando-se de enumerar o que nem cabia no mundo mais, de tão imenso.
'Tudo' é sempre muita coisa. É sempre excessivo e aterrador. Plenitude falsa, que inflige grandiosidade e restringe qualquer detalhe. O Tudo finge! 
Qualquer coisa menor, mais simples, coisa de gente mesmo, enfim, perde a importância. Passa despercebido.

Ora bolas, o Tudo é para super-heróis. 
Para quem salva o mundo todo. Para quem tem poderes demais. Não pra quem pega resfriado. Não para quem fica feliz pregando um novo quadro na parede, fazendo um desenho ou um bolo. Para quem se alivia bebendo um simples copo d´água nesse tempo de escassez.
Tudo é muito grande. É muita coisa. Não há mensuração que dê conta.
Impossível mastigar e engolir. Sobra. Cai da boca. Quebra os dentes.
Sobra o que de nada serve. O que ocupa muito espaço e invade. Casa entulhada de coisas pra disfarçar vazios.
No tudo há tanto que falta.
Falta a troca justa e milagrosa do fazer junto.

O que espera receber em troca quem faz tudo por alguém ?
Como se paga? Como se faz também?

Resta só um NADA a se fazer. 
Impotência aterradora. 
Não-ser como única forma de existir.

- Você entra com esse tudo. E me sobra esse nada aqui para colaborar.

Assim foi feita a prova dos nove, contabilizando a relação.
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