sexta-feira, 6 de junho de 2008

PELA SAÚDE DA LOUCURA



O festeiro Dioniso, nos momentos que sucumbia às pragas de Hera - a madrasta -, enlouquecia por aí, perdido, errante, sofrido, e procurava sua "curandeira" avó Réia para que o salvasse da dor.
A sábia avozinha levava o jovem às profundezas da desrazão, para que enlouquecesse de verdade, e só então pudesse sair da crise.
É que desse jeito ele mergulharia fundo, grande, delirantemente, até que nem soubesse mais nada de si e perdesse aquela certeza burra que às vezes nos assola, privando-nos de experimentar qualquer sensação ou ação nova, para ficarmos seguros, presos, no que já delimitamos como o que seja nós mesmos.
"Eu sou assim. Só durmo de luz acesa. Me conheço. Nem adianta tentar mudar. É da minha natureza."
Isso tudo pode aparentemente ser reconfortante, já que brigar com o 'destino' daria um trabalhão danado. Daí o fato de a gente procurar um nível suportável de sofrimento e ficar preso ali, sem sair, como se fosse sina da vida.
O trabalho de análise está mais ou menos associado ao de Réia - que não sem querer significa fluxo - possibilitando ao analisando que ele consiga transitar um pouquinho dentro do que já conhece de si, e entre o que nem experimentou ainda, entre o que ele sequer se achava capaz de realizar.
Depois o paciente escolhe o que quer.
Mas pelo menos tenta, ousa, 'enlouquece' mundo afora, pois começa a provar umas frutas exóticas, umas fantasias novas, umas 'maluquices' e extravagâncias antes inaceitáveis. Afinal, provar dessas coisas pode ser uma ameaça de perder o controle de tudo.
... E vai que saímos gargalhando por aí, de braços dados, cantarolando, absolutamente desgovernados... Já pensou se nos descobrem? Já imaginou se percebem que não precisamos controlar as risadas prá viver?

*foto: Luciano Máximo (Summer in Salemo)
Postar um comentário