domingo, 4 de janeiro de 2009

A LÂMPADA


Começa o ano novo e eu aqui tentando responder todos os e-mails e cartões que recebi - até parece que foram vários assim - com aquele monte de instruções de uso para o ano vindouro que me mandam.
Sinceramente, acho muito chato cartão de papelaria com um tanto de intromissão na minha vida e uns desejos chinfrins que não têm nada a ver comigo.
Quando a frase começa com o "Que..." (Que o espírito do natal blá, blá, blá. Que o ano que se inicia blé, blé, blé. Que a renovação bli, bli, bli. E por aí vai) confesso que, quando chego a ler, é com uma má vontade tremenda.
É que nada disso tem muito a ver com o meu desejo das coisas. Daí o responder seja tão difícil.
Eu até que gostaria de dizer meus desejos prá vida dos outros. Imagina chegar pro seu amigo e mandar na lata: "Que você descubra que sua mulher é uma mala e olhe em volta aquela amiga tão legal!" Ou "Que o seu chefe te mande embora e você comece finalmente a ganhar dinheiro fazendo aquele troço que gosta tanto e faz tão bem!" Ou ainda "Que sua ficha caia que déficit de vitamina C só se cura com vitamina C. E que o déficit de atenção diagnosticado da sua filha também, milagrosamente, só se cura com atenção!" E prá terminar "Que você quebre tudo em volta da lâmpada pro seu desejo poder ser reconhecido no meio de tanta quinquilharia."
Se eu fizesse isso, a plenos pulmões, contando qual o meu desejo sobre a vida dos outros, eu, no mínimo, perderia um bom lote de amigos.
Por isso que é tão difícil fazer 'votos' prá vida de alguém. Afinal, alguma coisa levou aquele ser a fazer exatamente aquela certa escolha. E ele tem sempre quinhentas razões para justificá-la.
A função do analista vai mais ou menos por esse caminho.
Ao invés de ficar fazendo planos prá vida dos outros e traçando estratégias - ninguém seguirá mesmo; trabalho inglório seria - a gente fica jogando pedrinha no leão do zoológico, que teima em dormir logo no momento em que fomos visitá-lo. Até desmontar toda arquitetura de desculpas mal ajambradas que o leãozinho deu prá estar ali deitado. Exatamente naquela hora.

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