sábado, 4 de dezembro de 2010

FOI FALTA?

ele chegou reclamando do corpo.
Tonturas, taquicardias, dores, suores, e medo, muito medo de sentir sua carcaça.
Esse corpo imperfeito e exigente, cheio de vontades e pedidos que ele nem sequer sonhava escutar, muito menos atender.
Essa sujeira pulsante toda que esfrega na nossa cara o quanto somos pequenos, como temos parcos poderes diante do mundo.
Essa paga que carregamos em carne viva, quase morta, mas viva.
ele chegou reclamando dos outros:
"Eles dizem que eu tenho é falta de Deus. todos dizem que é falta de Deus."
ele, assim minúsculo, que vai à igreja, que é cristão, que ora com fervor e não se entrega aos prazeres, teve um chamado.
Não veio do dedo em riste saindo das nuvens. Não veio de voz e trovão. Não veio nem de visagem ou aparição.
O buraco era bem mais embaixo.
Era o corpo gritando. E como berra o desgraçado!!!
Solta a voz desesperado, com pavor da morte e das sentenças acusatórias que vêm de todos os lados:
"Você está com falta de Deus. Se pega com o divino, menino."
Ó a confusão!!!
Eu, que desconfio de rimas, me ajeito na cadeira e ouço.
Ouço tanto grito que me sinto até médium visitando presídio.
É que tem hora que parece que Deus comete falta mesmo.
E falta grave!
Dá bico na canela, joelhada, fratura o pé, quebra costela, mandíbula e nariz, enfia o dedo no olho,... Puxão de orelha é brincadeira de criança. Puro treino.
Dizendo meu amigo Cacá Pereira: "Deus tem um joystick. E joga playstation com a gente.
Aperta o 'slow', e o sujeito perde o emprego em dezembro.
Aperta o 'mute', e ninguém escuta o coitadinho."
Aperta o 'repeat' e tá a gente ali robotizado, sem entender como foi parar ali naquela cena de novo, apesar de o cenário até parecer diferente.
Daí tem hora que a única coisa que a gente consegue gritar é por socorro, rezando pra maca chegar logo.
Ai esse corpo que grita. Ai essa dor de alma. Ai de mim, ai de mim! Ai de mim que sou pequeno nessa briga.

Ai que ser humano dá um trabalho danado...

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