domingo, 20 de abril de 2008

DIGERINDO


E a gente lê as últimas notícias de um crime absurdo e fica enjoado, se perguntando o motivo.
Por que? Por que?
E logo, logo virão um monte de explicações dos 'especialistas' falando sobre um possível uso de drogas, sobre a possessão demoníaca, sobre sintomas de epilepsia, sobre acerto de contas de vidas passadas, sobre resquícios de uma infância mal curada, sobre sei lá mais o que que simplesmente não dá conta.
Nem quero eu aqui engordar o time dos que explicam tudo, caindo naquela esparrela de quem nunca leu Freud atribui a ele. Freud não explica. Ele investiga. O que é bem diferente.
Mas o tema aqui é outro. Vai bem além de tentar entender quem pratica crimes contra quem quer que seja.
Meu assunto aqui é digestão. Sim, pois a gente se acostuma a comer nosso pê-efe de todo dia, com grãos, hortaliças, proteínas e tudo que uma dieta saudável exige. E de repente vem um bloco de concreto, um monte de lixo enfiados goela abaixo e a gente se vê obrigado a engolir, tentando dar sentido àquela montoeira de coisa nenhuma que incomoda, dá náusea, tira o sono e remexe em tudo o que deveria ficar inerte, intocado, intovável.
A máquina de fazer sentido chamada consciência fica agora completamente ineficaz. E a estranheza diante do monstruoso que pode ser o humano esfrega na cara, até de quem não quer ver, um aspecto bastante desconhecido e pouquíssimo aceito entre os seres.
Não bastam anti-ácidos prá facilitar a digestão. Não adianta mamão com laranja, actívia ou qualquer coisa do gênero.
O homem é bicho desconhecido pro homem.
E quem não se choca com isso, quem consegue digerir essa concretude toda como se fosse normal, comum posto que frequente, prá mim, já deixou de ser humano há muito tempo.
Assim, engolindo tudo como se fosse tudo a mesma coisa, a gente deixa até mesmo de perceber o pôr-do-sol como espetáculo. E passa a achar tudo 'muito natural'.

foto de Vinícius Guarilha
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