domingo, 10 de junho de 2007

ESCANINHO SÓ PROS MEUS


E vira e mexe chega um me pedindo um diagnóstico preciso. Pois, segundo ele, assim será mais fácil tratar. A comparação é como a de um dermatologista, um especialista em determinado assunto que, infelizmente, se especializa tanto em um que esquece todos os outros.
E essa comparação não é só pro médico, não.
O Freud dizia que usava as patologias como lente de aumento prá estudar as características humanas. A princípio parece estranho isso, como se tivéssemos características "anormais", insanas, o tempo todo. Mas um olhar mais detalhado pode nos oferecer até um certo alívio, afinal, ninguém precisa ser de um jeito só o tempo todo.
E era isso que o barbudo afirmava. Que o problema maior surgia quando congelávamos num só aspecto da personalidade, cristalizando-a, e esquecendo todo o resto, todas as outras possibilidades de estar no mundo.
O filósofo Gilles Deleuze, por sua vez, levantou a questão da saúde em termos de uma personalidade nômade. Isto quer dizer que para levarmos a vida de maneira saudável, ao invés de nos firmarmos em um diagnóstico preciso e muitas vezes aprisionante, melhor seria se encarássemos a personalidade de cada um - inclusive a nossa - como transitória.
A multiplicidade impera, nessa sugestão de bem viver, como única possibilidade de saúde.
Olhando assim de banda, rapidinho, só correndo os olhos, parece realmente fácil. Não fosse a simplicidade a meta mais complexa de se alcançar...
Mas o que chamo atenção aqui é para a possibilidade. É para o poder ser outro como um aspecto saudável do ser, fugindo ao que chamamos patologicamente de 'duas caras', de 'maria vai com as outras' ou de mera volubilidade, quando acenamos com a hipótese de se mudar de idéia. De se mudar de posição e estratégia quando a que teimamos em utilizar simplesmente não dá mais conta.
E então?
Você vai ficar aí parado?
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