quarta-feira, 16 de maio de 2007

ANÁLISE? PRÁ QUÊ?

Eu fico aqui enchendo vocês de textos e não cheguei ainda a um ponto que pode ser crucial. Afinal, prá que é que as pessoas fazem análise? Quem precisa disso realmente? E serve prá quê?
Não é raro eu receber telefonemas tentando marcar sessões prá uma outra pessoa. "Não é prá mim, não. Eu não preciso disso. É meu marido, sabe? (filha, cunhado, vizinho, sogra,...) É ele que não se adapta a mim, ao meu desejo. Ele é o maluco da história."
Sim, há o estigma de que análise é coisa prá maluco, prá doido varrido, prá quem precisa se adaptar ao mundo. Mas não é bem por aí.
O Freud tentou ser pragmático e foi por eliminatória, descrevendo logo quem não precisava de análise, afirmando que esta era prá quem não tem as capacidades para o amor e para o trabalho.
Bom, lendo assim rapidinho, tá fácil.
Mas vamos dissecar essa frase.
O Freud não falou, em momento algum, em casamento, ereção, frigidez ou qualquer coisa assim. Ele foi claríssimo. Falou da capacidade de amar. De se entregar e de aceitar a entrega do outro. Só isso.
Mas nesse caso, o simples é, de longe, o mais complexo.
E o trabalho?
Reparem que a palavra 'emprego' não foi utilizada. É 'trabalho' mesmo. Executar bem algo que dê prazer e ainda renda algum trocado pro sustento.
A princípio parece fácil também, não fosse a gincana freudiana realizada simultaneamente.
Nada de arrumar um emprego e deixar o amor prá daqui a 40 anos, quando alcançar a estabilidade. Nada de viver só pro amor e esquecer do resto. Isso é um passo prá obsessão.
Mas tem gente que até consegue fazer essas duas coisas muito bem, sim. E vem o Winnicott, discípulo de Freud, pediatra e psicanalista inglês, e traz um instrumento novo à nossas divagações.
Winnicott sempre foi visto como pediatra, mas sempre atendeu adultos também em sua carreira de psicanalista. Ele percebeu que os problemas trazidos pelos adultos não eram assim tão novos, tão atuais, e acabavam refletindo alguma coisa lá de trás, como se houvesse uma falha, um queimar etapas no desenvolvimento, e faltasse alguma coisa que não se sabe muito bem o que é.
Ele percebeu então a importância da infância na constituição do sujeito, e declarou com todas as letras o que, na sua opinião, seria a função da análise: restituir a capacidade de brincar.
E você aí, da sua cadeira, pensa que quem está brincando sou eu, quando eu tomo como verdadeira a assertiva winnicottiana. Mas eu logo exemplifico. Veja o número crescente de deprimidos no mundo. Já reparou como tem gente que não sabe sorrir?
Fica um "muito riso, pouco siso" introjetados de tal forma que é até ofensivo você demonstrar um pouquinho de leveza que seja. E parece que o único sentimento que se julga aceitável é a angústia. Esta sim, coisa de "gente séria", "responsável".
Mas já que estamos nessa discussão, acho justo chamar o Ferenczi de novo prá dar seu parecer.
O Ferenczi se destacava na clínica por se diferenciar da postura comumente adotada pelos analistas em relação aos seus analisandos. Ele acreditava na empatia, no que chamou de 'sentir com', possibilitando que seus pacientes experimentassem e dirigissem a ele todo tipo de afeto, inclusive os negativos. E percebeu que, como no amor e na amizade,no ódio e na raiva havia muita força produtiva também, fugindo assim de qualquer tentativa de moldar o paciente, percorrendo um caminho inverso, o da descoberta e invenção do paciente por ele mesmo.
O que Ferenczi valorizava era a capacidade de sentir, independente do que fosse.
Não quero dizer aqui que análise é para nos tornarmos humanos, como se fosse um cursinho prá virar gente que fazemos quando temos tempo.
Mas é nesse passeio de investigação do inconsciente que podemos alcançar muita coisa, e nos permitir atos tão simples como se deixar tocar pelo que está ao redor.

"'Vamos fazer de conta que somos reis e rainhas.' E a irmã, que gostava de ser exata, argumenta que não podia ser, pois elas eram somente duas. Alice foi então forçada a improvisar: -Bom, você pode ser um deles, então, e eu serei todos os outros".
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