quarta-feira, 9 de maio de 2007

BABEL - ainda as crianças

Falar do querer das crianças causou um frisson danado, e uma confusão maior ainda. Mas não dava prá ser diferente quando o próprio tema é confuso, quando mexe justamente com a linguagem. Com a expressão e compreensão do que se quer.
Confesso que quando escrevi sobre o desejo das crianças, tive medo de ser interpretada como perversa - vai saber como as pessoas lêem. E por isso mesmo senti necessidade de esclarecer e expor aqui algumas teorias à respeito.
Meu temor era o de que alguma mente doente lesse sobre o desejo das crianças e se apressasse em levantar bandeiras do tipo "Liberou a pedofilia!"
Essa falha de comunicação já foi explicitada há muito tempo por um amigo, seguidor e colaborador do Freud, chamado Sándor Ferenczi, conhecido não só por ousar e experimentar sempre novas técnicas com seus analisandos, como por ser o endereço certo dos casos difíceis da Europa, no período entre guerras. Ou seja, todos os casos mais escabrosos eram encaminhados a ele. Se Ferenczi não resolver... não tem jeito.
Era mais ou menos isso.
O tal do Ferenczi, em 1932, escreveu um texto lindíssimo em que ele afirmava haver uma confusão de línguas entre adultos e crianças.
O Freud já defendera a sexualidade das crianças e seu desenvolvimento, mas esqueceu desse detalhe: como os adultos encaram isso.
E veio o Ferenczi dizendo o seguinte: enquanto a linguagem da criança é a da ternura, a do adulto é a sedução.
Em suma, precisou o Ferenczi dar uma de intérprete e tradutor pra levantar a questão da pedofilia. Afinal, as crianças cresciam - sim, elas crescem - achando-se culpadas, responsáveis, por atos cometidos CONTRA elas mesmas. São elas as sedutoras, as perversas, as pervertidas. Até porque os autores desses atos, "criaturas respeitosas e de bem", eram geralemente pessoas de sua inteira confiança, e que, a princípio, estariam ali para protegê-las
É. O tema é pesado mesmo.
Mas nem sempre precisa ser, não.
Há outros meios de interpretação do desejo infantil. E outras confusões também.
Uma delas é confundir o querer infantil com mera pirraça, capricho, manha, chatice enfim.
Mas fazer pirraça não é prerrogativa da criança. Não tem coisa mais chata do que um adulto se destruindo, se "jogando no chão e se debatendo" só prá chamar a atenção; crente, desde criancinha, que esse é o único modo de alguém prestar atenção às suas queixas.
O querer infantil nada tem de chato. Nada tem de pirracento. Nada tem de responsável por estupros.
Ele é, pura e simplesmente, desejo de experimentar. Com o respeito que lhe é devido. É claro.

Quem se lembra dos filmes do Truffaut e das vivências de Antoine? ô menino que sofre né? Outro dia ouvi uma mulher aconselhando outra a levar seu filho numa coleira, assim ele não correria e não se arriscaria a ser atropelado.
Acho que ensinar o mesmo a olhar pros 2 lados pode ser útil. Imagina o gajo com 30 anos, esperando no sinal alguém lhe puxar ou prender a cordinha...
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