quarta-feira, 23 de maio de 2007

FALÁCIAS II - REVANCHE

Conheço um caso de uma pessoa que tinha tanto pavor de ficar sozinha, tanto medo do silêncio, tanto pânico de se encontrar consigo mesma, que ao acordar, já de cara, ligava som e TV ao mesmo tempo. E ainda fazia uma vitamina, só prá ter um barulhinho a mais, o do liquidificador, para lhe fazer companhia.
Exageros didáticos à parte, mas vocês nunca ouviram nada parecido?
É que o corte profundo do silêncio dói na carne, às vezes.
Fica meio um medo de redação tema livre. Lembram disso?
"Ué, folha em branco, professora? Mas eu mesmo que vou escolher o tema? Assim não vale."
E vem o pânico.
Mas o silêncio fala tão alto, tão alto, que chega a ser confuso lhe dar ouvidos. Tantas vozes... Tantas falas... Que o contato com o que se pensa chega a ser paralisante. Talvez daí venha a necessidade de fazer um barulhão. Prá preencher espaços. Prá encher logo a folha branca e não lidar nunca mais com o vazio. Prá fugir da solidão - palavra mais que associada ao silêncio. E que acaba, por isso mesmo, provocando uma ameaça de dor mais doída que a própria.
Mas preencher o silêncio com palavras tantas será realmente eficaz?
É que acaba ficando meio sem sentido fugir do silêncio e pôr no lugar um monte de coisas que nem sempre se pode aproveitar. Só prá não se sentir só.
Às vezes o grito é necessário. Noutras não.
Basta um olhar prá dentro. Sem medo. E descobrir tanta coisa que ainda pode vir a ser. Que ainda pode surgir.
Até prá poder mediar bem e prestar atenção em de quem é a voz.
Se nossa.
Se de alguém que a gente tomou emprestado só prá não dizer nada. Ou prá ter o que falar...

Não é que quando escrevia sobre o silêncio saiu tudo do ar... E fiquei muda. Maldição.
Assuntos ocultos dão nisso.
Mas quero ver quem escuta o grito do Munch agora. Parece grito de sonho. Não sai nada.
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