quinta-feira, 24 de março de 2022

Como 2 e 2 são 5

 



Entre um gole e outro, uma baforada no cigarro pra pegar no tranco, e uma movimentação na cadeira, confiando em suas ferrugens como argamassa, ele foi categórico, no estilo Psiquê, ou Cinderela, separando grão por grão:

- "Vou te explicar: Poblema... é de matemática. Agora pobrema? Ahhhh, pobrema é da vida!"

Numa reação aristotélica, danei a formular equações. O lado bom da matemática é que a resposta é só uma. Será?  E os intervalos? 

Fui atropelada por pensamentos e frases e memórias de giz no quadro. Pertence? não pertence? contém? está devidamente contido, medicado e sob controle? Mas e o ornitorrinco? E o ornitorrinco, mano? Que apito ele toca?

Fora as questões da prova que perduram e são pra mim incógnitas até hoje:

- 3 operários trabalham 4 horas extras por dia sem receber por isso.... um empresário tem uma cadeia de lojas e outros 80 imóveis e seus funcionários não recebem aumento há anos... 439 agrotóxicos liberados numa cenoura....mas a maconha é proibida. Maconha mata - eles disseram. Ôpa. maconha é da vida. não da matemática. Acho que começo a entender.

 E arma? também mata, então é vida? não, não, arma é liberdade - eles também disseram.

E quando eu grito "Fora!!!!" delimitando o meu conjunto? matemática? economia? ou manifesto antifascista?

Isso sem falar em dinheiros. Será que a Rússia invadiria a Ucrânia por bitcoins?

E a quebra de correntes? De promessas? Do cinzeiro de vidro na parede? É pulsão de vida ou pulsão de morte?

Categorizar dá trabalho. E talvez só exista essa pureza no laboratório. No tubo de ensaio.

E o ensaio, você sabe, é tentativa que ainda não estreou.

...Enquanto isso... só digo uma coisa, pra rebater meu colega lá de cima:

- "ema, ema ema..."

domingo, 23 de janeiro de 2022

UMAS IDEIAS AÍ...



 Já faz tempo que essa história aconteceu. 

Num taxi, com uma amiga que falava durante todo o percurso sobre minha profissão, o motorista se vira, interessando-se em mim e descuidando-se da pista, me passando o controle de suas direções, e pede um socorro emergencial, aproveitando o ensejo:

- Moça, como a gente esquece um amor?

Uma pergunta assim, "tola e corriqueira", como se alguém - EU?-  entendesse dessas coisas, depositando em mim uma esperança que nem os deuses alcançam, e num dia em que eu nem estava de plantão, não poderia ficar sem uma resposta. E a única que pude oferecer se conduziu ao desespero:

- Senhor, só conheço um método rápido. Mas não é garantido. Além do perigo grande, pode deixar sequelas irreversíveis: Pancada na cabeça. Tem gente que esquece até que fumava. Mas nunca se sabe o efeito certo a ser alcançado. Nem a duração do resultado. 

Tanto tempo se passou e sigo tentando encontrar o caminho. "Quem sabe se...??? Não, não funciona. Mas e se, por outro lado...???" e de novo refutava as hipóteses.

Até que hoje me veio uma ideia. Não de tratamento. Mas de prevenção, que pode ser  que até renda um bom dinheiro. 

Pensei num aplicativo. 

Que se iniciaria na hora marcada do encontro ou telefonema jurado. Se a pessoa diz que vai ligar às 20:00, exatamente ás 20:00 começa a tocar uma musiquinha insuportável de telemarketing. Com pianos intermináveis, tipo  Richard Cleiderman, ou um zumbido de saxofone no modelo Kenny G, ou mesmo o Bethoven do gás,,... várias opções, para melhor atendimento ao freguês.

Nunca antes do combinado, já que não se trata aqui de estimular ansiedades. Algo que só pudesse ser acionado com promessas mesmo. Hoje o google descobre até o destino preferido das férias, não seria difícil detectar um trato ou maltrato.

E a musiquinha vai tocando, tocando, tocando,...até que o ser faça contato. Ou que o aplicativo seja reiniciado, mudando de assunto.

E a essa altura, diante da promessa falsa e da prova cabal de impontualidade, passados míseros 20 ou 30 minutos, o amado cliente já estaria soltando fogo pelas ventas, e clamando para falar com o supervisor.

Um tempo depois, apenas uma mensagem como as grandes empresas do país fazem. Aquelas privatizadas óoootimas (e aqui, e só aqui, estou sendo irônica), que enviam um recado avisando que "sua sessão expirou por falta de comunicação".

Imaginem de quanta música ruim seríamos poupados?

Pois é. Eu imaginei.

Mas, pensando bem, como ainda sou de um modelo clássico e antigo, sem peças de reposição,  pouco afeito aos consumismos, um bom livro como companhia causaria melhores efeitos ao cancioneiro popular. E sem essa canseira toda.

Há clientes para tudo nesse mundo. Mas ainda bem que a ideia passou.

Já pensou se alguém ainda insere a musiquinha na canção? Feitiço contra feiticeiro, na certa. 

Vou ficar quieta. Esse método também não serve. 

Ah, os domingos....

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O lado sexy do Jason


 Dei um pulo no médico para ver uma manchinha. Dados novos na minha estética. Sinais de "veiêra". Quem nunca?

Ele respondeu prontamente: " Aqui não posso fazer nada. Mas vamos dar um jeito nessa testa? Aplicar um Botox. Vai ficar lisinha. E se o problema for dinheiro, te faço um preço camarada, pois há um projeto social - olha que bonito.- e você só paga 1/6 do valor em troca do seu direito de imagem. 

Voltei pra casa tentada. Seria esta uma oportunidade imperdível? Estaria eu tão desatualizada assim? Tão resistente aos avanços tecnológicos? 

Quando eu tinha uns 15 anos, uma conhecida me mostrou como sua plástica nos seios havia modificado substancialmente sua vida, e tentava me convencer a seguir seus passos naquela empreitada. O pior - ou o melhor -  é que, o que ela chamava de fantástico, a mim parecia o Frankstein. Não pelo resultado, mas pela antecipação de uma intervenção cirúrgica que eu sequer havia cogitado. Retalhos e queloides num par de seios novinhos era a proposta. E assustada eu disse NÃO.

Pensei nessa testa de azulejos. e ensaiei argumentos. "Mas doutor... Demorei tantas décadas para aprender a me expressar a contendo. E você quer tirar isso de mim? E quem me levará a sério se eu, com esse tamanho pouco, não arquear uma só sobrancelha a la Jack Nicholson,  demonstrando que cheguei no meu limite?"

Busquei no google. Comparei as fotos de Antes / Depois. 

E depois do depois? Qual seria o próximo passo? 

Sobrancelhas de Demônio. Cílios de Anabele. Unhas do Zé do Caixão. Tudo isso combinando aos cabelos Loira do banheiro, que é pra harmonizar bem. Ora bolas, nesse critério eu prefiro a Carrie estranha. 

Imagina só eu demonstrando que me preocupo com alguma coisa, interpretando com o dedo indicador na testa como faz Regina Duarte.  Isso sim seria feio.

Agradeci, como requer a boa educação. Mas seria, no mínimo, desumano, não me expressar com horror aos horrores cotidianos. E para tanto, preciso, sim, de minhas rugas. Porque minhas.



quarta-feira, 2 de junho de 2021

CABEÇALHO



 

    Em caso de desorientação, taquicardia, confusão mental, sudorese, descontrole esfincteriano ou simplesmente vontade de se juntar a algum grupo que você nem sabe como surgiu, há uma receita.

Para os casos de angústia diante da folha em branco, do jaleco branco, de branco na memória ou ainda de levantar bandeiras da supremacia branca, a receita é praticamente a mesma:

FAÇA O CABEÇALHO!

Faça o cabeçalho no alto da página, ou mesmo mentalmente. Do jeitinho que tia Marocas ensinou. Nome da escola, série que estuda, data, localização, nome.

De preferência, preencha ainda o nome do Pai, o da Mãe, e até o da bisavó que você sequer conheceu. aquela que provavelmente é filha de alguém que fugiu da guerra de algum país. Ou, ainda, que foi expulsa. Ou, ainda, capturada. 

A receita é boa. Situa. Orienta no tempo, no espaço, e na construção histórica.

Não se esqueça de colocar a ocupação. A ocupação é muito importante. E por que você se ocupa do que se ocupa, seja pra levar comida pras crianças de casa, seja porque acredita no que faz. 

E no que acredita. No pastor, no pôr do sol, na promessa amorosa, no meteoro, no chá de boldo, ... Não importa. Em alguma coisa existe crença.

A folha em branco já foi tomada pela metade até aqui. 

Agora um modo de fazer.

Preste atenção, pois é aqui o perigo. Se inverter a ordem das coisas, se não misturar direito o que é de misturar, e se não separar bem o que é de separar, vai virar uma gororoba difícil de engolir. E os ingredientes são seus. E você não quer esse ser prato insosso e impalatável né?!? Não pra você mesmo.

Junte agora tudo o que você acha odiável. Anote, enumere, classifique, dê notas.

Mas não personalize não. Sem nomes, sem siglas, só diga. Pode ser injustiça ou pimentão. Sábado de chuva ou quarta de sol. Barulho de ventilador ou silêncio sem ventilador. Coloque aqui.

Finalmente, depois de se situar pra ver a situação. Depois de classificar para a desclassificação, Tente ligar os pontos e contar uma história: A história das setas e seus porquês.

Bom, por hoje é só isso mesmo. Quero ver como fica. Não esqueça o cabeçalho. Se até o alho tem cabeça, não queira perder a sua.






 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

PARA O HULK. COM AMOR

 


Sempre elegi o Incrível Hulk como meu herói favorito. 

Nem sempre foi fácil.

Num certo período da vida, me arrependi profundamente e amaldiçoei meus gostos. Tentei voltar ao ponto de escolha e mudar todo o percurso:

Ah, se eu gostasse do Batman!!!! Pelo menos contaria com uma gorda pensão alimentícia! - Dizia meu lado romântico, enquanto me esquecia que o Batman pode comprar o advogado que quiser. E assim, reafirmava minha escolha.

Outro dia mesmo, enquanto um vizinho queimava lixo em seu quintal, me peguei devaneando, imaginando que eu  jogava um botijão de gás na casa incendiária, percebendo o quanto meu lado zen budista - haha - pode planejar coisas tão incríveis quanto o Hulk.

Eu gostava mesmo, além do senso de justiça de Xangô que acompanha esse ser gamado, do olhar melancólico enquanto pedia carona, ao final de cada episódio. Talvez por isso também tenha escolhido essa profissão que acompanha os olhares e as fugas bem de perto.Um nomadismo ancestral que buscava sempre outra parte do planeta em que pudesse ficar numa relax, numa tranquila, numa boa, até que... Até que morte e vida se interpusessem em seu caminho!

Ao mesmo tempo que gostava do Hulk, chegando a sonhar com ele me ajudando a estudar química ou me ensinando a dar socos, mantive sempre um certo desprezo pelo Capitão América, aquele moço limpinho e uniformizado que, enquanto os nazistas perdiam a guerra, enquanto Elvis mexia a pélvis, os Beatles cresciam, o Woodstock alucinava, o  Michael Jackson revolucionava música, letra, dança e vídeoclip e as boas festas dos anos 80 e 90 rolavam na acabação, ele, o Capitão, estava ali dormindo, apagadão, frozen toda vida. E teve o azar de acordar só quando o funk já batia com a bunda no chão. Ah, pobre miserável! Ainda por cima é militar.

Enquanto isso, tá lá o Hulk, juntinho do doutor, negociando pulsões, equalizando fúrias e protegendo os amores enquanto pode. ele falha! Sim, como falha. Mas esse é o aspecto mais incrível do herói. Ele tá vivo. Acordado. e pode até falhar.

Ahhh, que homem!!!!!!


P.S.: Em pleno 2021, Pandemia mundial, Universidades Federais ameaçadas de fechar- lá, onde se formam doutores como David Bruce Banner, CPI da covid e genocida Capitão no poder e eu aqui falando de herói? Exatamente. Uma ode à fúria! Conclame seu Hulk!


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

TaLENTO ou UMA QUESTÃO DE USURA


O Medo da Morte nem sonhava em existir ali, naquele terreno árido e ressentido onde deveria haver alguma vegetação, a mais rasteira que fosse. Contrariando as estatísticas e predições de descobridores, aquelas que dizem que por aqui, em se plantando, tudo dá, ele teimava em cortar suas raízes. Em não reconhecê-las, em denegá-las e mudar de sobrenome, para que nenhuma associação original pudesse ser produzida.
Onde não há início, não pode haver um fim. Faltava-lhe o medo da morte. Sobrava-lhe medo de vida. E nessa espécie de limbo, o acerto de contas do juízo final tomava uma forma bizarra e dantesca.
"O que fizeste dos talentos que te confiei?
Pior do que o fim é essa maldita pergunta sobre o meio, o caminho, a estrada. sobre as causas abraçadas e os investimentos. Sobre os desenvolvimentos e o ser bom em algo na vida.
E pra não entregar a prova em branco, pra não ter que se haver com silêncios, faz-se um barulho ensurdecedor. Escreve-se qualquer coisa, mesmo que estapafúrdia.
Ás vezes parece que há uma lógica da aprovação automática nas ações. Aquelas que só reprovam por falta. E, assim, qualquer aprendizado ou mesmo mediação entre ideias e ações contrárias se torna realmente impossível.
É aí que entra uma certa organização necessária das atribuições. Usar os talentos na hora do show de talentos. e que falta faz uma buzina do Chacrinha!!!! Nem que seja pra nortear um pouquinho a qualidade do que se quer mostrar.
"Ensaie mais, calouro! Aprimore-se. Volte pra casa e só retorne aqui quando tiver um show preparado para apresentar." 

Imagine um desafinado cantando só porque o microfone estava aberto?
Pavor né?!?
Ultimamente sinto saudades de muita coisa. Algumas que eu achava fúteis, inclusive. mas que agora me dou conta da importância. 
A buzina, por exemplo. como eu queria esse objeto à mão em alguns momentos. Quando alguém defende o indefensável, quando dá um show pobre e revela opiniões sem nenhum embasamento, só para marcar presença mesmo. Minha vontade não é de discutir. mas de buzinar. Mandar o calouro pra casa ensaiar ate que o que tenha a mostrar tenha alguma consistência. Afinal, se ele se propõe a se expôr, que seja da melhor maneira possível. 
A sensação é a de que falta jurado. falta realmente essa pergunta: Cadê seu talento, minha filha? Mostre! Desenterre. Escolha com afinco suas causas. Esse negócio de seguir alguém para não se haver com seu próprio desejo já passou de preguiça. É usura. É desperdício! É ser pão duro demais não só com o outro, mas com você. 
Pior que morrer é não viver! 
E sendo assim, só há um caminho:
ORA BOLAS,  VÁ CUIDAR DA SUA VIDA!!!!!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

VAMOS LEVAR SÓ O ESSENCIAL, TÁ?


As mensagens de promoção não param de chegar, me oferecendo incríveis tênis de corrida, por exemplo.
Como pude viver uma vida inteira sem isso? Talvez porque nunca tenha gostado disso.
Aproveite! Cadastre-se! Compre agora! Não perca a oportunidade! E você sabe: Crise significa oportunidade, já dizia o sábio chinês.
Talvez, segundo esse pensamento, a escola, ou, mais amplamente, a educação esteja sendo tão atacada na última década. Nem preciso apelar para os saudosos termos com licença, por favor, obrigada,... Falo de funções mais elaboradas. De enunciados de provas discursivas, com várias linhas a serem preenchidas: "Desenvolva seu argumento!" e "Ponha na ordem de prioridades!"
Parece haver, atualmente, uma antecipação enorme, uma grande ansiedade em acelerar processos, mesmo que isso signifique um retrabalho, um fazer de novo interminável. Play it again, Sam! é a ordem encoberta, que ecoa sem parar, que ressalta tamanha pressa em acabar logo essa fase, na mesma medida em que tenta dissimular que está tudo sob controle. 
Mas no desenvolvimento do argumento há a pergunta gritando na orelha: Controle de quê?
Ontem, por aqui, e em várias partes do Brasil, o comércio reabriu, reabrindo também passeios, festas, estradas... Um monte de gente tirando fotos sem máscaras, em bares, com pessoas que eu aposto quanto quiserem que não seriam as de sua escolha se realmente tivéssemos nos liberado do vírus invisível. E uma afirmação de não se dobrar aos desejos externos de reclusão no aconchego do lar. 
E então a pergunta grita de novo: Não se dobra? Que liberdade é essa a de sair por aí quando há um decreto? Livre para quê? e de que prisão falamos?
O medo da escola aparece de novo, no pavor do tema livre da redação. No branco que dá ao ver uma pagina em branco. 
Não sei se todo mundo se questiona sobre as razões do outro. Mas quando o outro sequer consegue desenvolver seus argumentos, como mandava a tia na prova. Quando sequer consegue ordenar suas prioridades, parece que nos forçamos a fazer essa parte também. Só que não dá. Sinto muito.
Não cabe responder pelo coleguinha, já que fazer a parte do outro aumenta a mediocridade e pode até eleger presidente que não faz nada de útil. Está provado cientificamente - Olha o perigo em colocar o nome dos outros no trabalho em grupo.
Mas cabe perguntar. Cabe exigir máscara. Cabe até dizer não ao pedido do ansioso suposto malandro que não conseguiu sentar seu rabo em casa durante uma peste que mata tanta gente. 
Eu só posso percorrer meu próprio caminho. E, sinceramente, não usaria tênis de corrida para isso.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

ENTRE FIOS E O MINOTAURO


Diante da queixa saudosa de filas - ambiente ideal para a proliferação destas - , de que Fulana de Tal se sentia aprisionada, meu único ímpeto foi o de produzir aquele sentimento digno de pena. A saber: a pena. A pena de alguém que se dizia cumprir pena em sua própria casa. Mas que pessoa desgraçada e miserável, aquela que reproduz em seu lar, construído cortina por cortina, enfeite por enfeite, conforto por conforto, cantinho por cantinho,a realidade carcerária!
De que será feita essa parede que estabelece o limite entre o dentro e o fora de forma tão radical assim?
Não sei como seria essa sensação de aprisionamento. Por aqui, o ir e vir é intenso. 
Pego um livro, começo, esqueço-o num canto qualquer, lembro de uma música... e de quando ouvia essa música. Reviro baús, armários, gavetas, e encontro até passagens secretas que julgava camufladas. O mato que cresceu ao redor deu árvores frutíferas e trepadeiras que formaram outra cerca, que teimo em pular.  Na segurança de minha casa, desbravo memórias e quase num ato senil me deparo com esquecimentos divertidos: Como era o nome daquela promessa de amor eterno mesmo? Lembro que quase morri. E lembro de suas meias coloridas e de como nos lambuzávamos comendo acarajé. Mas do seu nome eu já não tenho certeza. Afinal, o chamado é outro agora. Não requer nomes. Não requer demonstrações de ciúmes. 
A viagem agora é pra dentro! Prescinde de carimbos e vistos.
Outro livro, caído por trás de outros na estante. Outra história que não é a minha. Aparentemente. Mas também é. Uma dedicatória que traz o nome de mais um outro que não sei por onde anda. Nunca nem vi. Bônus de sebos: Trazer uma história dentro de outra, e alinhavar com a história do leitor. 
Vou reclamar de cárcere? Ah, mas se não creio em pecados, por que crer na penitência? Faria tanto sentido quanto sair por aí fantasiada de livre quando trago em mim a limitação da porta de casa. De casa, minha gente. 
E se, por acaso, eu me perder no labirinto, agradeço ao devaneio. Agradeço e propicio. Faço minha parte. Entre o dentro e o fora há muito mais que as paredes de casa. Há tantos caminhos e pessoas e memórias que seria de uma penúria imensa eu me reduzir a prisões internas. Com um novelo qualquer posso ser Ariadne, Teseu, Minotauro ou o próprio Labirinto. 
Melhor que novela!!!!