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sábado, 8 de outubro de 2022

DEIXE SEU RECADO

 

Outro dia, outra noite, eu estava num evento na cidade que moro que muito me apraz. Um evento em praça pública, com DJ tocando as melhores músicas, comida boa, cerveja artesanal,.. Um espaço amplo para nos movimentarmos e gente bonita passando, ficando, conversando e ocupando o lugar da melhor maneira que pode. Como acontece com o corpo desde o primeiro toque de tambor inventado, a música foi ritmando meus movimentos até que eu estivesse dançando no meio da rua, me deixando levar pela melodia. 

Evento terminado e escuto de uma moça até então desconhecida: "Foi tão lindo te ver dançar. Deu vontade de ficar perto de você e dançar junto. Mas como não te conhecia, fiquei tímida, e dancei ali mesmo, no cantinho da praça, sozinha".

Fiquei encantada, pensando nessa potência que a dança proporciona, de se expressar sem saber exatamente pra quem, comunicar para o próprio corpo, dizendo: "sim, você pode", e a partir daí conseguir até mesmo influenciar o comportamento e afeto de outros corpos, que também podem. E ousam. E como ousam bonito!

Mas... Outros fatores se somaram aos acontecimentos da semana, nem tão prazerosos assim. Então teoricamente vou mudar de assunto, mas na prática estaremos falando da mesma coisa, e vocês entenderão.

Infelizmente, essa mesma cidade tem sido palco não só de espetáculos de dança, mas de crimes hediondos praticados contra mulheres, por motivos frívolos como não querer pagar pensão alimentícia aos filhos, não aceitação de fins de relacionamentos ou mesmo, porque a vítima estava passando e assim foi decidido executá-la. Esta mesma cidade resolve contratar como atleta para investir na escola de futebol o talentoso, porém criminoso, goleiro Bruno, assassino da mãe de seu filho, com todas as ações que denotam crueldade e classificam o crime como também hediondo.

Quanto a suas capacidades como goleiro, não tenho nada a declarar. Mas qual seria a mensagem, a comunicação, que está sendo feita no ato desta contratação?

Se eu, batendo os pés no chão e levantando os braços em onda sou capaz de comunicar e influenciar o comportamento de alguém que eu sequer sabia que existia, qual o alcance desta contratação e a capacidade de afetar ações futuras em novas e antigas gerações?

o tempo todo, mesmo ser perceber, a gente manda recados. E sequer precisamos de um discurso bem montado para isso.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

TOMA ESSE CORPO QUE TE PERTENCE



Ah, esse corpo fardo! Farto de esperar quem o domine e o leve pra cama. 
Nem que seja a gripe...
Ah, esse corpo que dói e se ressente de não ser ele o dono de seu próprio corpo. Fascinado pelos fortes que se apropriam de tudo como fossem cobradores de impostos: 
"Você me deve! "
É tudo o que ouvem. 
É tudo o que dizem, enumerando os queixumes e agravos sofridos com resignação e esperanças alucinadas na vida após a morte: "Há de haver justiça e choro e ranger de dentes". Do outro, claro. 
Nós, os bons, os fracos e puros de coração, jamais sofreremos nessa projeção de futuro ensandecida que pune sempre quem se apropria de seu próprio corpo e mata de inveja quem abnega dele.
Ah, esse corpo que pulsa e muda o ritmo a cada vez que vê o pôr do sol ou que um carro avança o sinal nos forçando a ficarmos mais espertos. Repetindo um 'quase morri' pra garantir ao menos uma cicatriz da vida. Uma marca que seja.
Quase. Quase vivo nesse corpo. Quase respondo bem à medicação que me torna mero efeito colateral.
Ah, esse quase corpo. Quase sente que pode. Mas acaba resignado com medo do pastor exorcista perceber que há Vida além da vida.
Que há desejo e vontade chamados de demônios e um corpo que sofre, apanha, mas que também bate e estremece inteiro.
Ah, o que pode um corpo que não se contém???
Transbordar para o além. Para o antes e o depois. Sentindo que o que sente não se descreve. Não se desenha. Simplesmente não cabe em si. E assim vaza ao mundo quando a tv é desligada.
Todo cuidado é pouco pra um corpo que se afirma num descuido.
Toda gota d´água é um perigo de derrame, de luxúria, de apedrejamento.
Todo movimento ameaça ao inferno aqueles que deixam pra depois da morte o momento exato de se dizerem: Sim, eu sinto! Eu quero!