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domingo, 5 de setembro de 2010

FREUD EXPLICA?

Uma de minhas frases preferidas ouvidas por aí, não se sabe onde, não se sabe de quem, é:
"Quem sabe faz, quem não sabe, ensina."
Claro que sempre impliquei com professores ruins, que não têm a menor idéia de como aquela parafernália que ele tá explicando funciona na prática.
Aliás, prá que serve uma explicação?
Desconfiada que sou, sempre fico de orelha em pé quando alguém começa a se explicar.
- Minha mãe não me acordou prá prova.
- Não é nada disso que você está pensando, ela só estava fazendo uma massagem.
- O policial era esquizofrênico.
- Blá, blá, blá, blá, blá, blá,...
Todas estas, e muitas outras, sempre tentam dar conta de um erro, um vacilo, um deslize.
O deslize de se deixar pegar.
Já dizia Freud, faz tempo, que a culpa é anterior ao crime. Daí o crime perfeito ser exatamente o que deixa pistas, para que o sujeito possa ficar explicando o inexplicável por aí e, assim, sossegue de seu peso.
O peso agora vai para o outro, que morre de raiva, que morre de tédio, que morre de dor-de-cotovelo, abandonado com tanta perversidade travestida de franqueza, tanta "sinceridade" desnecessária.
Mas, cá entre nós, não tem nada mais chato do que alguém que explique.
Só de alguém tomar essa atitude, a gente já se prepara: Ihhhhh, lá vem enrolação!
E se deixa ludibriar por aquelas cenas absolutamente surreais narradas.
Outro dia, uma amiga me contou uma cena em que ela chorava na frente do namorado ao ouvir uma música.
Ah,... a música que leva a gente prá uns períodos da vida que a gente jurava superados.
Ele pergunta o que é.
Ela explica: Papai nunca me amou. Mamãe me maltratou.
Outro velho blá, blá, blá...
Óbvio que ela pulou a parte do ex, que sempre tocava justamente aquela música, e que a rejeitou.
Havia uma rejeição ali. E era tudo daquilo dito. E não era nada daquilo também...
O atual, condoído, penalizado com sua amada, lhe jurava amor eterno e tentava resgatar-lhe da torre.
Ela prometia pensar.
Pensar, pensar, pensar, e consultar os pais.
Entendeu?
Mas não é prá entender mesmo.
Explicação é assim. É só prá ter descarga.
Só prá disfarçar um desejo não assumido assim em público, sem olhos nus, sem cara à tapa.
Aí a gente vai falando, falando, até o outro encher o saco de ouvir e ir embora.
Finalmente!

Não faço a menor idéia se a humanidade tem jeito. Mas que ela conta com uma lógica absurda, ah, disso não resta dúvida.

sábado, 26 de maio de 2007


Tudo bem...
Fico falando aqui sobre o silêncio, e sobre ficar sozinho consigo mesmo... Mas esqueci de mencionar como isso é difícil e trabalhoso - quiçá até doloroso.
Mas a gente pode ir prá teoria, e ficar mais racional, assim não dói tanto falar disso tudo.
Winnicott, o pediatra-psicanalista-inglês, escreveu um texto muito bom que falava da capacidade de estar só.
Segundo ele, essa capacidade era aprendida, e eram precisos alguns requisitos básicos que, a princípio, se mostram controversos.
Ele afirmava que, para que uma criança seja capaz de ficar sozinha, ela deve experimentá-lo na presença de alguém. Confuso né? A princípio sim. Mas não quando a gente pensa nas crianças brincando, e na presença de algum adulto que lhes seja importante ali, para lhe assegurar a existência, para lhe afirmar que ela não foi abandonada, que alguém a respeita em sua vontade de brincar, sem interferir na brincadeira, mas nem por isso sem deixá-la de lado, fica mais fácil entender.
O 'estar só' muitas vezes é tão difícil por essa associação com o abandono. Com o "ninguém me ama, ninguém me quer", e não faço falta prá ninguém. E talvez tenha sido assim que a maioria das pessoas tenha experienciado essa sensação de estar sozinho. Como se o resto do mundo representasse uma ameaça terrível, já que não há ninguém para dar a mão na hora que for preciso.
A imagem que me vem a cabeça prá falar disso e da criança perdida na praia, como se nunca mais fosse achar os seus, como se de agora em diante tivesse que mudar de vida, pois seus pais lhe fugiram da vista.
E ela tem que enfrentar a multidão fazendo muito barulho para ser novamente encontrada.
É isso...
Mas a solidão não precisa ser esse EU X resto do mundo, não.
Às vezes basta um aceno, basta um sorriso, basta um olhar, prá gente continuar a fazer os nossos castelinhos na areia.