quarta-feira, 3 de junho de 2026

ALÔ, SOM... TESTANDO...

     O caminhão de mudança parou bem em frente a minha casa. De lá vinha uma música alta. Um rap.

Pensei "Uau!" Música que fala muito, vamos escutar.

Escutei. 3 segundos de entrega total a Jesus, daquele jeito amor erótico que música de crente faz. "Venha, me possua. Eu sou só seu."

Coisa boa na vida é ter bom ouvido. Nem que seja pra mudar de ambiente. Dessa vez tive sorte. O caminhão de mudança só veio deixar uma caixa com o vizinho e se mudou rapidamente de endereço.

Noutras tive mais sorte ainda, guiada pela teimosia de buscar bons sons.

Me perguntaram uma vez se eu não misturava as histórias dos pacientes e as confundia. 

Acho que a resposta é não. O timbre, o ritmo, a batida e a melodia de cada um são únicos. Como única é cada sessão. E dá pra arrepiar e distinguir bem entre um tom estridente e um som balbuciado entre dentes.

Há que se buscar a música melhor, que pode ser festeira, realmente triste  ou tão confusa  que mal se possa diferenciá-la.  Mas há música. E há busca.

Se eu não procurar, acabo aceitando o ruído do caminhão de mudança,; o rádio ligado que só toca jabá; o refrão pobre e chiclete de quem repete somente a mesma estrofe. 

E música ruim pode ter muito efeito colateral. Desde uma acomodação com o que o mercado quer que eu consuma, me fazendo cantar porque estou acostumada; até um descompasso no coração, que toca, forçado, seu tambor de um jeito torto e sem encanto.