quarta-feira, 30 de julho de 2008

COMO GANHAR UMA ELEIÇÃO:


Qualquer criança de 4 anos sabe como funciona uma eleição.
Ela tem que vender votos e levar muito dinheiro prá escola. Quem levar mais, vira sinhazinha e sinhôzinho.
Assim é até hoje, em qualquer lugar, em qualquer eleição. Não requer prática nem tampouco habilidade. Não precisa ter bons antecedentes, nível de instrução básico, projetos palpáveis... Nada disso.
Basta prometer levar bastante dinheiro pros 'donos das escolas', viabilizar lucros, e ter carisma.
Ah, o carisma.
O Freud já falava da identificação com o agressor, que é mais ou menos o que os sequestrados têm pelo sequestrador. É quase uma gratidão. Como se o cara fosse um sujeito muito gente boa, afinal, a vítima está viva graças à ele.
O que isso tem a ver com eleição?
É só ler os jornais e se deparar com a foto do bispo Crivela chamando bandido de iluminado, instaurando uma guerra civil no morro da providência - não sem antes levantar a bandeira da paz. Claro.
Pensando bem, acho que nunca vi uma guerra que não tivesse essa bandeira.
E não é mais ou menos assim que as coisas funcionam?
Quando alguém quer ganhar adeptos de sua causa, nomeia um inimigo qualquer, e contra ele, angaria simpatizantes para sua causa.
Qualquer cirança de 4 anos sabe disso. Queimar judas, caçar bruxas, matar bandidos, gaseificar judeus, ciganos, "comunistas".
Tudo é válido prá ganhar eleição.
Teve um cara que fez isso no século passado. Um baixinho, com bigode esquisito. Como era mesmo o nome dele?

segunda-feira, 30 de junho de 2008

ENTRE E.T.s E "US ÔMI"


Domingo frio e acabei vendo um filminho com as crianças.
Eu lá, vendo filme infantil, nem aí prá nada além da pipoca. Só que a diferença básica: era o filme do E.T: O extraterrestre. Filme vai, filme vem, caio eu no choro lá de longe, lá da infância, lá do cinema desde a primeira vez que pude ir sem adultos cuidando de mim. Só nós, os amigos, as crianças.
Me senti até intrusa daquele momento tão infantil.
É que esse fato corriqueiro, no filme do E.T., muda tudo. (Quem não viu, não merece. Corra. Ainda dá tempo).
Lembrei de como aquele filme me marcou, pois comecei a prestar atenção ao seguinte: Enquanto o mundo está povoado por crianças, cachorro e extraterrestre, tudo dá certo!
Mas chegam os homens...
Degringola tudo. É uma choradeira sem fim. É a ameaça que nunca acaba.
Senti mais ou menos a mesma coisa ao ver King Kong, quando primeiro tiram o pobre macaco da floresta. E depois, sem saber o que fazer com ele, matam o coitadão.
Impressionante né?
Acho que a sensação pós E.T./ King Kong veio à tona mesmo quando li os jornais a respeito da zona sul se mobilizando prá contratar milícias prá tomarem conta da segurança.
"Chama 'us ômi'" é a pedida. Mesmo quando a gente lê também que um menino (18 anos é menino, sim) é morto na porta de uma boate por um policial contratado prá fazer a segurança de outro menino.
Não é por nada não, mas esse negócio de chamar os "adultos" armados prá tomar conta das crianças indefesas - nós - não me desce pela goela. Nem com milícia nem com exército.
Prefiro as crianças...
Os cachorros...
Os macacos...
Os E.T.s...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

REPETINDO...


Criança é fogo!
A gente acaba de contar uma historinha e ela vem com a frase que mata qualquer adulto de sono:
- Conta de novo?
É que assim ela vai elaborando a história.
Vai elaborando. Vai digerindo... Num gerundismo obrigatório e quase contínuo que a persegue até...
Aí vêm os adultos, esses seres de outro planeta, e dizem que estão cansados de tanto repetir a mesma história. Sem se darem conta de que eles mesmos, os ETs, repetem suas próprias histórias incessantemente.
Eu, adulta e ET que sou, caí nessa esparrela no último post, e me vi escrevendo sobre a mesma coisa que já havia escrito antes.
Só percebi isso depois. Depois de uma sensação de deja vu tomar conta de mim e incomodar.
Concluí que no primeiro texto sobre esse assunto, ficou faltando alguma coisa que precisava ser dita, revista, ou meramente mencionada. E talvez por isso eu tivesse necessidade de ficar num blá blá blá de refrão. Até achar a tal coisa. Até achar a diferença. Até FAZER a diferença.
E feito máquina do tempo, tentei voltar prá resolver o que não estava definido. Voltar ao que "não deu certo", ao imperfeito (= pouco feito), ao que não foi mastigado, deglutido, engolido, digerido enfim.
Por que falo do meu processo criativo?
É que a repetição, como a das histórinhas, não acaba com a infância. O tempo todo a gente risca o disco prá ficar na mesma estrofe. O raro é perceber em cada repetição um solo diferente.
Mas afinal, por que repetimos?
Marque sua hora que a gente pesquisa isso junto.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

PELA SAÚDE DA LOUCURA



O festeiro Dioniso, nos momentos que sucumbia às pragas de Hera - a madrasta -, enlouquecia por aí, perdido, errante, sofrido, e procurava sua "curandeira" avó Réia para que o salvasse da dor.
A sábia avozinha levava o jovem às profundezas da desrazão, para que enlouquecesse de verdade, e só então pudesse sair da crise.
É que desse jeito ele mergulharia fundo, grande, delirantemente, até que nem soubesse mais nada de si e perdesse aquela certeza burra que às vezes nos assola, privando-nos de experimentar qualquer sensação ou ação nova, para ficarmos seguros, presos, no que já delimitamos como o que seja nós mesmos.
"Eu sou assim. Só durmo de luz acesa. Me conheço. Nem adianta tentar mudar. É da minha natureza."
Isso tudo pode aparentemente ser reconfortante, já que brigar com o 'destino' daria um trabalhão danado. Daí o fato de a gente procurar um nível suportável de sofrimento e ficar preso ali, sem sair, como se fosse sina da vida.
O trabalho de análise está mais ou menos associado ao de Réia - que não sem querer significa fluxo - possibilitando ao analisando que ele consiga transitar um pouquinho dentro do que já conhece de si, e entre o que nem experimentou ainda, entre o que ele sequer se achava capaz de realizar.
Depois o paciente escolhe o que quer.
Mas pelo menos tenta, ousa, 'enlouquece' mundo afora, pois começa a provar umas frutas exóticas, umas fantasias novas, umas 'maluquices' e extravagâncias antes inaceitáveis. Afinal, provar dessas coisas pode ser uma ameaça de perder o controle de tudo.
... E vai que saímos gargalhando por aí, de braços dados, cantarolando, absolutamente desgovernados... Já pensou se nos descobrem? Já imaginou se percebem que não precisamos controlar as risadas prá viver?

*foto: Luciano Máximo (Summer in Salemo)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

IN DARWIN WE TRUST


Respondendo ao último texto e me provocando, um amigo me escreveu o seguinte: "Zeus já era. O negócio agora é aceitar Darwin no coração."
Fiquei rindo sozinha. Mas, como costumo levar a brincadeira muito à sério, resolvi fazer um esforço, tomar um memoriol, e lembrar o que mesmo que Darwin dizia.
Acho, sinceramente, que uma das coisas mais difíceis de se fazer é aceitar Darwin no coração.
É que a tal da seleção natural implica em primeiríssima instância num exercício de desapego fora do normal. Aliás, fora do humano.
É tão difícil ver que o caminho traçado não era dos bons. Ou que até era, mas só naquele instante. Naquela ocasião. Naquela circunstância específica.
É tão difícil ver que amizades de infância duram somente a infância - claro que com raras exceções, dá prá crescer com um ou outro ente, se esse crescer também, é claro.
E amor prá vida toda então... Esses são os piores.
Tem hora que a seleção natural já não seleciona mais nada. Não há mais afinidade. Não há admiração. Não há nem relação. Mas a gente teima em manter como se fosse a única chance de ser feliz. Afinal, em time que tá ganhando... blá, blá, blá.
Só que às vezes o time ganha por incompetência do concorrente mesmo, ou por sorte, ou pela conjunção favorável dos astros, por ebó, por... Daí a achar que ele é o melhor dos dez mais, que só assim pode ser, que não há outro meio, acaba correndo o risco de ficar demasiadamente limitado. E o que seria escolha - seleção - acaba se apresentando como sina.
"Eu só sei fazer assim."
Tá formada a maldição da vida.
E o sujeito fica horas ali riscando o mesmo fósforo queimado. Afinal, ele já acendeu uma vez e foi tão lindo...

terça-feira, 6 de maio de 2008

TODO MUNDO É FILHO DE ZEUS.


Não, não.
Não estou bêbada trocando pernas e letras, afirmando que tá zuzo bem e tropeçando no próprio pé.
Mas é que lendo o jornal começo a ficar até mesmo religiosa. E como as religiões sempre pecam na prática, fico com os mitos, que já são impraticáveis por natureza.
Zeus, pai dos homens e dos deuses, símbolo da civilização helênica, conseguiu sobreviver a seu pai Cronos-devorador-de-criancinhas, graças a uma esperteza de sua velha mãe Réia, que escondeu o rebento e enganou o pai temeroso de que sua prole lhe roubasse o trono - por isso devorava todos os filhos.
Mas Zeus pode tudo. Zeus é forte. Só Zeus salva e o escambau à quatro. E ele não só sobreviveu como povoou o mundo de deuses e semi-deuses assumindo tudo o que é forma física - ou não - quando se interessava por uma gazela.
E cada filho seu era amado e respeitado como tal. Orgulho de painho, xodó de mainha (embora a madrasta já imperasse como a bruxa má do oeste, zeus sempre defendia suas crias do ciúme desta).
E era isso a que chamavam de civilização. A certeza de poder contar com uns cuidadosinhos desde pequenos, para depois virem a ser o que fossem.
Só que ultimamente parece que a dívida primordial - a do papai e da mamãe terem nos dado a vida - parece cada vez mais impagável. Pois além de dar a vida, a gente tem que agradecer todo dia nunca ter sido jogado pela janela, nunca ter sido incinerado, nunca ter apanhado até a morte prá parar de chorar - ô lógica bizarra - e nunca, nunquinha, ter sido preso em cativeiro por décadas.
Se bobear, a gente ainda tem que agradecer às neuroses e impotências, às culpas judaico-cristãs, às proteções de tudo o que se mexa e que respire e que se chame vida.

É muita falta de Zeus no coração, né não?!? Já que Zeus não protegia da vida. Mas da morte. Do fim. DA falta de escolha absoluta.

E por falar em pai - mãe só semana que vem - hoje é aniversário do Freud, outro que não largou seus filhos por aí escondidos na lixeira. Ao contrário, ele pegava os trapos humanos que lhe eram encaminhados e tratava de devolver-lhes a vida, com toda a idiossincrasia de cada um, já que cada inconsciente é único, mutante, inapreensível.

Que Zeus te acompanhe!
Quanto ao Freud, você tem que fazer contato comigo mesma. Eu dou o recado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

TROCA DE EUS


Entro numa livraria qualquer. Desavisada e ingênua. Só prá olhar as novidades mesmo.
Impressionante como os últimos lançamentos ensinam tudo sobre mim. sobre você. sobre qualquer um.
Tudo prá gente aprender a controlar de vez o que eles chamam de eu, prometendo mundos e fundos com esse poder todo exercido sobre nós mesmos.
Nada importa. Nada é obstáculo. Nada me atrapalha. Só eu. ops: só o eu.
Só ele - o eu - vale alguma coisa.
Só ele tem superpoderes de saber e prever tudo, planejando exatamente o que acontecerá. Isso se você seguir o manual direitinho. Claro.
...E passeio pela livraria tentando fugir do eu - de mim mesma? leitura pobre essa - e vendo o que uns outros mais interessantes têm prá me dizer.
E controlada e sabendo o que procurava pois já domino o eu - hahaha - encontro uma das coisas mais lindas.
O Ferenczi, meu analista favorito, faz uma longa explanação sobre o ato sexual. E eis que ele coloca o beijo como um fator de dissolução do ego.
O beijo na boca, somado ao abraço, são elementos de dissolução do ego, pois nesse momento ninguém precisa muito de ego. O que se quer é se misturar ao outro, procurando um ritmo, uma respiração, um jeito de estar junto sem competição prá ver quem domina, quem está certo, quem comanda.
É o beijo o instrumento primordial para se abrir mão do que quer que seja chamado de eu. Sem isso, qualquer troca fica, inexoravelmente, impossível.
Fico aqui encarnando a Chapeuzinho, me perguntando sem parar:
-Prá que esse ego tão grande?

domingo, 20 de abril de 2008

DIGERINDO


E a gente lê as últimas notícias de um crime absurdo e fica enjoado, se perguntando o motivo.
Por que? Por que?
E logo, logo virão um monte de explicações dos 'especialistas' falando sobre um possível uso de drogas, sobre a possessão demoníaca, sobre sintomas de epilepsia, sobre acerto de contas de vidas passadas, sobre resquícios de uma infância mal curada, sobre sei lá mais o que que simplesmente não dá conta.
Nem quero eu aqui engordar o time dos que explicam tudo, caindo naquela esparrela de quem nunca leu Freud atribui a ele. Freud não explica. Ele investiga. O que é bem diferente.
Mas o tema aqui é outro. Vai bem além de tentar entender quem pratica crimes contra quem quer que seja.
Meu assunto aqui é digestão. Sim, pois a gente se acostuma a comer nosso pê-efe de todo dia, com grãos, hortaliças, proteínas e tudo que uma dieta saudável exige. E de repente vem um bloco de concreto, um monte de lixo enfiados goela abaixo e a gente se vê obrigado a engolir, tentando dar sentido àquela montoeira de coisa nenhuma que incomoda, dá náusea, tira o sono e remexe em tudo o que deveria ficar inerte, intocado, intovável.
A máquina de fazer sentido chamada consciência fica agora completamente ineficaz. E a estranheza diante do monstruoso que pode ser o humano esfrega na cara, até de quem não quer ver, um aspecto bastante desconhecido e pouquíssimo aceito entre os seres.
Não bastam anti-ácidos prá facilitar a digestão. Não adianta mamão com laranja, actívia ou qualquer coisa do gênero.
O homem é bicho desconhecido pro homem.
E quem não se choca com isso, quem consegue digerir essa concretude toda como se fosse normal, comum posto que frequente, prá mim, já deixou de ser humano há muito tempo.
Assim, engolindo tudo como se fosse tudo a mesma coisa, a gente deixa até mesmo de perceber o pôr-do-sol como espetáculo. E passa a achar tudo 'muito natural'.

foto de Vinícius Guarilha

segunda-feira, 14 de abril de 2008

DATANDO


Demorei um tempinho até cair minha ficha, lendo a obra de Freud, que esta era uma obra datada.
O que significa que às vezes ele pode parecer contraditório se a gente não prestar atenção em que contexto ele sai formulando hipóteses por aí. Até que percebi que isso não se dá só na obra do Freud, não.
Bingo. Achei a fórmula: Há que se prestar atenção no cabeçalho dos acontecimentos.
Vira e mexe saem umas 'pesquisas científicas' (sic) por aí abordando o tempo de duração dos afetos. Mas eu assumo que não consigo me preocupar muito com essas validades pré estabelecidas. O que me preocupa é a data de fabricação. E mais ainda, a data de declaração.
Acho que quando a gente registra uma declaração - seja de amor, ódio, amizade ou voto prá síndico - tem que assinar, colocar local, data, e de preferência, substância consumida,e ainda a música de fundo.
Assim a gente até entende com outros olhos aquele pedido de casamento depois de 2 garrafas e meia de vodka ouvindo um bolerão. Ou a briga dos melhores amigos até rolarem no chão depois de uma frasesinha boba envolvendo a mãe de alguém. E nem precisa fortalecer a ressaca lembrando do episódio.
Outro dia eu ouvia qualquer coisa assim: "Ele é tão carinhoso. SEmpre foi. Mas de repente, quando os gêmeos nasceram, ele esfriou um pouco, sabe? E desde então nunca mais ele me beijou, prá vc ter uma idéia."
Eu, tola, pergunto a idade dos gêmeos.
"Os meninos têm 36. São uns amores".
O registro tá tão atual né? Mas como em banco e previdência, às vezes é preciso um recadastramento. Uma confirmação de que ainda é aquele mesmo - pelo menos em uma coisa ou outra - e concorda com o que disse outro dia, outro mês, outro ano...
Enfim, tá aqui minha proposta de datar as declarações e de que elas precisem ser sempre renovadas.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

MALDIÇÃO


Quem não se lembra de Malévola, a bruxa má que roga uma praga na Princesa Aurora - a bela que dorme - quando esta ainda era um bebezinho?
A gente cresce e acha que essas historinhas são pura ficção prá distrair as crianças e enriquecer o imaginário delas.
Só que a ficção às vezes vira realidade e nem nos damos conta disso.
Outro dia eu via o filme 'O passado' em que uma mulher louca de pedra persegue o ex marido até acabar com tudo o que ele conseguiu construir na vida. E lhe roga uma praga mais ou menos assim; "Quando você estiver sozinho, só terá a mim."
Só que a mesma faz tudo prá chegar logo esse momento de solidão do pobre diabo até que sua profecia se concretize.
Na vida real (heim?) não é muito diferente do filme, não. Mas há como fugir disso, há como reescrever o roteiro, há como quebrar o encanto lançado simplesmente olhando bem firme prá ele num trabalho prá lá de pai de santo ou pastor universal.
O propósito na clínica psicanalítica está justamente em tentar descobrir outras saídas, outros modos de ação, fechando o corpo de vez e começando a escolher um pouquinho só no que acreditar, tirando das maldições o caráter de verdades incontestáveis, absolutas.
É que geralmente quem roga a tal praga de madrinha é alguém que exerce um poder fenomenal sobre a gente. Daí desmentir essa pessoa significa também desmentir todas as outras coisas importantes que ela falou. Mas por que levar as "pré-destinações" tão à sério?
Só questionando isso a gente pode encontrar um outro destino, bem diverso do já escrito pelas bruxas de plantão, e dessa vez abrir espaço para, pelo menos, experimentar o diferente.