terça-feira, 15 de abril de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

COMO VAI VOCÊ?


A conversa começou assim:

Despretensiosa! 

Quase como um bocejo. Como quem está no elevador e pergunta, só pra passar o tempo, até que se chegue ao destino desejado.
Como quem fala do clima, mal preenchendo espaços vazios, e evitando assim qualquer olhar mais demorado, reclama-se do sol que castiga, da chuva que castiga, da seca que castiga, do vento. Um horror! Um horror!... 
Enfim, em termos de meteorologia, o ambiente é sempre castigo! Afinal, quem mandou comer maçã??? Deu nisso. A sorte é que, como dizia Mario Quintana, no paraíso não haverá este assunto, pois lá a temperatura está sempre agradável.

A resposta, no entanto, se fez longa, minuciosa e interminável...
Infinita mesmo!
Já que infinito é o que não tem início ou fim. 
É o que não se sabe bem como começa, e por isso não se tem a menor ideia de como, e se, terminará um dia.
Repetição eterna do que não faz sentido.Por mais que se sinta, e muito.
Resposta detalhada, prolixa, sem fio condutor ou causalidade. 
Nada do "Era uma vez...", "...Foram felizes", ou mesmo "foram encontrados mortos e abraçados" que tanto encantam. 
Não há história, estória ou parábola. Não há lição de moral, chiste ou sermão. 
Não há nada. Nada além das queixas: 
- Pressão alterada, arritmia cardíaca, dor no ciático que irradia, vesícula preguiçosa, humor instável, ansiedade crescente, e por aí vai. Descrição total do metabolismo, desde o acordar, repleto de efeitos rebotes, até a insone madrugada, dependente de remédios que nunca, nunca fazem efeito. 
Eita corpo resistente!!! Há que ser muito saudável pra suportar tudo isso. Tanta prova de que se está vivo, mesmo que vida não haja.

E não adianta mudar de assunto pra ver se muda a resposta, não. Se perguntar "O que tem feito?", a resposta será, inequivocamente, uma lista de especialistas que tomam o lugar do inglês, da natação, das viagens e encontros, dos cursos de artesanato, de música ou de teatro. Em troca destes há o Cardio..., o Pneumo..., o Neuro... e o Hemato... Todos com letra maiúscula. Todos com abreviações tomando o lugar dos apelidos amorosos de outros tempos. E um pronome possessivo denotando total intimidade e demarcação de território. Afinal, o doutor não é qualquer um, é O MEU. Ele é quem sabe tudo de mim. Ele conhece exatamente como eu (não) funciono. 

Do outro lado a pergunta gritando no peito, sem vontade nenhuma de ser falada:
"Mas quando foi que nos transformamos em meras descrições nosológicas? Meros efeitos colaterais de nós mesmos?"




segunda-feira, 31 de março de 2014

NOSSA SENHORA DESATADORA DOS NÓS

Quando a cabeça fica mais perto dos joelhos do que dos braços, é de se preocupar.
Quando um ombro fica perto do outro, protegendo a garganta, quase em arco, é de chamar o doutor.
Se o doutor ajuda ou não, só Deus sabe. Afinal, doutor é que nem cartomante: a gente nunca sabe se vai acertar ou não na previsão ou na dosagem. A única certeza que temos é que uma bronca virá. Fatalmente!
Mas e nó? O que fazer com ele?
Rubem Alves tem um texto belíssimo sobre o surgimento da pipoca:
Daquele milho duro e pequeno que ninguém queria, houve uma tentativa de destruição definitiva. Jogaram-no ao fogo,  elemento designado como único destino ao que é danoso ou inútil, para que o que não presta queime, incinerado até sua total extinção, talvez até por toda a eternidade. 
É o que dizem...
Mas eis que uma barulheira danada de tiroteio, de bang bang mesmo, mostrando que a guerra ainda persistia, por mais que fingissem que mais nada pudesse afligir, aconteceu. 
E daquilo que ninguém queria, sem serventia aparente alguma, surgiu este outro elemento, branquinho, macio e gostoso, que nos acompanha em cada sessão fantástica de cinema, e que é o alívio pras cenas insuportáveis, angustiantes, protegendo-nos da entrega ao total desamparo. Mesmo que "só" na ficção.
É mais ou menos esse o trabalho do psicanalista. O de transformação do fogo. Mistura de alquimista e cozinheiro, que ajuda a tornar os afetos duros e estéreis em algo melhor para a digestão.
Não me venham com desculpas de que já cuidam do corpo na academia ou no check up anual. De que já tomam toda a medicação prescrita. Ou que já rezam, e muito, para que o espírito não tropece em empecilhos ou tentações, acomodando-o à inércia aparente de quem tudo teme e nada faz. 
Seriam meras desculpas. E desculpas só servem para explicar o que não é feito a contendo.
Se ignorarmos todo esse milho duro e pequeno, esse tanto de nós que não desatamos, essas mágoas que crescem no escuro, como o medo infantil, fazendo de conta que não existem, jamais teremos a capacidade de, simplesmente, separar os grãos que nos alimentam daqueles outros que nos atormentam e estragam o gosto de tudo, se estes não forem tratados com o respeito e o cuidado que merecem.
Sem broncas.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

QUESTÃO DE HONRA


Houve um tempo - e já faz tempo - em que se media a honra de uma pessoa pela capacidade que ela tinha de ser vingativa e rancorosa, lavando o que estava "sujo" com sangue e mágoa eterna.
Pra não dar o braço a torcer, de que seu investimento estava furado, de que suas escolhas já estavam apodrecidas, de que havia um cheiro putrefato no ar de coisa vencida, ela se esquartejava inteira, alimentando monstros que carcomiam a alma feito metástases cancerosas (a redundância é exagero didático).
Não sei se as coisas mudaram. 
Não sei. 
Mas tento saber se há saídas outras, mais econômicas, afinal, o que é um braço preservado perto do corpo inteiro torturado?
Por que é preciso a ilusão de se manter na mão o que, inexoravelmente, foge ao controle?
Pra que se assemelhar aos coronéis daquele tempo antigo, os quais sequer se admira, nomeando o que pensas que te pertence e ampliando tuas posses imaginárias, se nada fará com tudo isso que acumulas?
Agora que o ano virou, arrumar o armário e ver o que serve, e o que só causa bolor, pode ser mais que útil. Pode ser mesmo questão de sobrevivência, arranjar espaços para as novidades e novas descobertas, fazendo um enterro decente para o que não cabe mais no agora.
Hei, você, que tenta agarrar e controlar o mundo todo, não tem mais o que fazer, não? 
Seu projeto é falido. Sinto muito!
A não ser que sejas uma centopeia, sempre faltarão braços.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

NA TV


Detesto televisão por um motivo muito simples: Detesto ser roubada!
Em outros tempos eu me atreveria a dizer que ninguém gosta de ser roubado. Mas estaria equivocada... 
Seria como dizer que ninguém gosta de se matar, de não pensar, que o ser humano busca sempre a evolução e evita ser escravizado. No entanto, se fosse mesmo assim, não haveria drogas, lícitas ou ilícitas, espalhadas pelo planeta com esse sucesso absoluto de público e crítica.
Ficar zapeando com o controle, fazendo de conta que tenho O controle, para MATAR o tempo e não pensar em nada, pra mim, nem é mais roubo. É auto-latrocínio. Rouba a alma, pois rouba a vontade, o desejo, o movimento. Faz-nos esquecer nossa função de encarnados, deixando que escolham o que queremos ver. E ainda abusam em dizer que dão opções, ao invés de assumirem: nós limitamos suas escolhas. E no final você ainda diz que usou o livre-arbítrio para escolher.
Desligue a tv e pense: Quantas vezes você foi diagnosticado essa semana com uma doença incurável que deve ser tratada para todo o sempre? E por que será que a indicação de tratamento vem sempre como uma opção de controle da doença, e não de cura? De transformação? De evolução? Aquela que supostamente todo ser humano é capaz, mas se perde em frente à tv ou em frente a qualquer vício?
Você quer o controle da tv? 
Ou você quer uma vida que valha?
Espera o grito do programa de auditório anunciar que agora está "valendoooooooo"???
Pôxa vida. Que desperdício! Que roubo! Que crime mais hediondo esse suicídio cotidiano!!!


segunda-feira, 22 de julho de 2013

TOMA ESSE CORPO QUE TE PERTENCE



Ah, esse corpo fardo! Farto de esperar quem o domine e o leve pra cama. 
Nem que seja a gripe...
Ah, esse corpo que dói e se ressente de não ser ele o dono de seu próprio corpo. Fascinado pelos fortes que se apropriam de tudo como fossem cobradores de impostos: 
"Você me deve! "
É tudo o que ouvem. 
É tudo o que dizem, enumerando os queixumes e agravos sofridos com resignação e esperanças alucinadas na vida após a morte: "Há de haver justiça e choro e ranger de dentes". Do outro, claro. 
Nós, os bons, os fracos e puros de coração, jamais sofreremos nessa projeção de futuro ensandecida que pune sempre quem se apropria de seu próprio corpo e mata de inveja quem abnega dele.
Ah, esse corpo que pulsa e muda o ritmo a cada vez que vê o pôr do sol ou que um carro avança o sinal nos forçando a ficarmos mais espertos. Repetindo um 'quase morri' pra garantir ao menos uma cicatriz da vida. Uma marca que seja.
Quase. Quase vivo nesse corpo. Quase respondo bem à medicação que me torna mero efeito colateral.
Ah, esse quase corpo. Quase sente que pode. Mas acaba resignado com medo do pastor exorcista perceber que há Vida além da vida.
Que há desejo e vontade chamados de demônios e um corpo que sofre, apanha, mas que também bate e estremece inteiro.
Ah, o que pode um corpo que não se contém???
Transbordar para o além. Para o antes e o depois. Sentindo que o que sente não se descreve. Não se desenha. Simplesmente não cabe em si. E assim vaza ao mundo quando a tv é desligada.
Todo cuidado é pouco pra um corpo que se afirma num descuido.
Toda gota d´água é um perigo de derrame, de luxúria, de apedrejamento.
Todo movimento ameaça ao inferno aqueles que deixam pra depois da morte o momento exato de se dizerem: Sim, eu sinto! Eu quero!

sábado, 22 de junho de 2013

?????


Outro dia li que a humanidade tem muitas perguntas e poucas respostas.
Discordo. E discordo completamente.

Não falta resposta alguma. Aliás, todas se parecem um bocado. É só questão de tradução.
Leia-se a interpretação da física quântica quanto a repulsão e a atração atômica e terás um corpo fechado ou uma predisposição genética para doenças.
As perguntas são as mesmas:

De onde viemos?

Para onde vamos? (E o que há por lá)

O que faremos nesse intervalo? 

e... a mais cruel de todas:
Isso faz algum sentido?

Mas os críticos e analistas da situação, acadêmicos e intelectuais, estão preocupados com uma pergunta que, para eles, parece fazer sentido total e absoluto:

"QUEM É O LÍDER???"


quarta-feira, 12 de junho de 2013

GAMBIARRA BLUES - UM AMOR LOUCO DE PEDRA


- Vai quebrar o menino assim, cuidado com o bracinho!
- E essa corrente de ar? Não dá pneumonia?
- Mas tá um calor dos infernos. Tira esse casaco. Deixa o sol entrar!
- O leite tá muito forte pra um recém-nascido.
- Forte? só leite não dá "sustança". Dá logo vitamina...

E assim chegamos ao mundo doidos pra aprender o que é o amor. Doidos pelas primeiras lições por mera questão de sobrevivência.
Doidos. 
Amor daquele que não acaba nunca. Daquele aprendido na sessão da tarde. Incondicional  - e cheio de vontades - desde que se faça tudo direitinho. Milagre, cura, arrebatamento. Daquele que todo mundo sabe que existe, mas tal qual face de Deus, ninguém sabe descrever que diabos é isto.

Bicho ruim é bicho-gente que não morre fácil. Afinal, com tanta barbeiragem na maternagem, era pra gente ser só os olhos revirando. Mas teimosos como só da raça humana mesmo, crescemos e vigamos.

Relação é igualzinho. 
Todo mundo sabe dar pitaco. Dizer que isso sim e isso não e aquilo de jeito nenhum. Como usar para melhor manutenção. Dosagem, posologia e informações medicamentosas. Mas na hora de ver como funciona, para além da teoria, a prática é muito outra. O que é delírio pra uns é suplício pra outros. E nunca, nada, ninguém sabe exatamente como operar com garantias.
Garanto!

E é solda aqui, parafuso ali, cuspe, suor e música bagunçando a sala e escondendo as fitas isolantes. Nós de lençol e de cabelo embutidos no conduíte. Sem falar em banho de sal grosso, promessa, dia propício para o jantar, pro baralho ou pro cinema americano.

Eita, que troço mais complicado esse aparelhinho de se relacionar!
Que só funciona no tranco. No treino. Na incerteza...
Eita, que às vezes dá vontade de desistir de tudo e trancar no quarto. "Quebrou. Tem mais conserto não."
Mas basta um suspiro à toa pra dar vontade de se enterrar na garagem e desmontar o trambolho todo até ver onde é que emperra.

E quem é teimoso de verdade insiste em tentar aprender o que ninguém sabe. Insiste em tentar o que ninguém descobre como. Teima em fazer de um jeito novo, autêntico. Sem manual, sem conselhos, sem modelos caricatos de outras modas imitadas (Mas livrai-nos dos pais, amém).

Ou desiste. Compra uma de plástico. Enfeita a cozinha.
Quem sabe funciona...
Quem sabe???

terça-feira, 21 de maio de 2013

LOCALIZACIONISMO


Há muito tempo atrás, quando a ciência era exata e precisa, descobertas incríveis foram feitas mapeando não só o cérebro como os campos em que os distúrbios psíquicos podiam ocorrer.
Quem já viu "Estranho no Ninho" sabe do que falo. Viu. E concluiu que a ciência de nada sabe. A não ser arrancar sisos, amídalas, vesícula, lobo frontal ou o que quer que seja.
Há muito mais tempo ainda, tentaram localizar a alma no corpo. E era um tal de coração versus mente prá cá, glândula pineal versus amigdala cerebral pra lá, que ninguém acertou até hoje.
Há pouco tempo, localizaram o prazer imediato da mulher. Esqueceram-se de que a mulher é mistério - disso já se sabe desde a maçã roubada - e que não é um ponto só, só unzinho, onde a mulher tem prazer, mas no que ela mostra ou no que nem conta pra ninguém.
Deixemos agora o passado para trás. Todas as previsões dessa grande cartomante charlatã que é a ciência estavam erradas.
Hoje há métodos muito mais modernos, muito mais eficazes. Mas a pergunta que fica é: Para quê? 
Claro que tem horas que queremos um mapa astral, um mapa da retina, um mapa genético, um mapa até do quadro de luz do prédio. E depois? Faz-se o que com o tesouro da Emília, a boneca de pano que guardava poeira, cílio, botão?
O importante aqui - pra quem tem mais a investir na saúde do que na doença - é: Aonde você localiza sua dor?
Onde guarda a identificação com sua mãe junto com toda a ambivalência inerente a esta? Tanto amor e tanto ódio juntos - em geral por não conseguir amar como queria - TEM que estar em algum lugar.
E o pai que nunca foi presente no momento em que se queria? O desaparecido, desconhecido ou simplesmente negligente? Onde estará?
Sem falar no amigo que falha, na traição do ser amado, no cachorro morto pelo vizinho...

Antigamente se tentava saber o local exato da alma. Mas alma hoje se salva com uns trocados. Quem se importa?
E o rancor? Onde fica? 
E a mágoa? 
Ou, em termos biológicos e científicos: Onde está sua ameaça de câncer?
Conheço gente que localiza tudo no celular. Quando briga com alguém espatifa o bicho na parede, joga no lago, e pronto. Zás. Ploft. Sock. Sonoplastia da série do Batman e tá dito tudo. Acabou-se o contato.
Mas quando a mágoa fica dentro... Ai, ai, ai.
Só falando com quem sabe escutar.
Falando e falando, até elaborar tudo. Até dissolver o ódio. Até aceitar o amor - Cheio de defeitos, mas amor.
Antes disso é corrosão. 
É tentativa de homicídio praticando suicídio. 
E está cientificamente provado que assim não funciona.



Agora me diga: Pra que essa boca tão grande?
 Fala!

terça-feira, 5 de março de 2013

SILÊNCIO É MÚSICA


"Eu simplesmente detesto quando mudam o tom do meu silêncio!"
Ele pensava, calado, mudando de assunto.
Afinal, desde muito antes de nascer acostumara-se a escutar seu próprio ritmo, antes compassado apenas com o tambor forte da mãe que o carregava.
Agia assim, visceralmente. Pensava com o sangue, com as artérias, com os órgãos. Sentia a vida e ainda tinha tempo de contemplar o barulho do sol quando nasce.
"Neurônios são para os fracos!"
Mas nesse free jazz todo cotidiano, de serra na janela do vizinho, de ônibus freando, de camelô gritando e gente falando muito sobre coisa nenhuma ele se perguntava onde se encaixar.
Sentia-se solo fora de hora, atrapalhando, tentando organizar a harmonia que se atropelava depois que o maestro criou tudo e se aposentou.
Esse jeito de viver dava trabalho. Mas era enfim, o único que sabia mais ou menos. Porque ninguém sabe viver completamente. 
Era nas nuances que ouvia os discursos. Era no ritmo da fala e da respiração que entendia o que realmente era pra ser entendido. Sem aquela encheção de linguiça de quem não tem o que dizer.
Algo assim feito cachorro que reconhece o afeto de longe. E tem ser mais sabido que os cachorros?
Ele sabia que um silêncio que contempla não é um silêncio cansado.
Que um silêncio pleno não é um silêncio cheio, ou de saco cheio. 
Há que se ouvir os suspiros, a respiração. Sob pena de interpretar uma pausa como depressão. Um momento solitário como agressão. Ou qualquer outra coisa que não esteja dita, mas esteja ali, pulsante.
O silêncio grita, pra quem não quiser ouvir. Fere. Sofre. E cria.
Noutra vez não diz mais nada. 
Acompanhar, sem quebrar o tom, aí já é coisa pra artista.